fiquei com vontade de compartilhar este texto aqui. eu não sei de quando ele é, talvez de 2021.
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tem algo que pulsa em mim
e está quase pronto pra morrer
e dar lugar à novidade
mas eu tenho medo demais
então faço bolos
junto ingredientes
invento combinações
acendo o fogo
coloco no forno
é meio impressionante
que de uma massa estranha
surja um bolo
deixo o trabalho de transmutação pra ele
e adio o meu
tenho medo de me deixar arder
de integrar toda desconexão
que de repente surge em encontro
e abrir espaço pra que eu mesma emerja
tenho medo de me relacionar profundamente
com os outros
de sentir a pele
tenho medo do contato
então eu faço bolos
que as pessoas tocam
e eu fico só de longe
observando e torcendo pra que gostem
e quando gostam
eu quero fazer mais bolos
quando não gostam, também
o que está quase pronto pra morrer
é o medo, a aversão ao contato
ao toque, às relações diretas
o que está quase pronto pra morrer
é o medo do prazer, da alegria e da celebração
o que está quase pronto pra morrer
é o medo de deixar arder
o que é intenso sentir
o que está quase pronto para morrer
é a abertura para experimentar
para além do gostar ou não gostar
antes de seguir com isso
vou lá no forno buscar o bolo
que está pronto
e vou eu mesma comer
pollyanna
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Um homem caminhava sozinho no deserto. Um lenço em sua cabeça o protegia do calor. O vento lhe fazia companhia e aliviava o percurso.
De longe avistou uma flor. Pensou logo que devia ser uma miragem, já que àquela altura, no meio do deserto, era improvável que encontrasse tão nítido broto de vida.
Foi se aproximando e a imagem não se desvanecia. Era mesmo uma flor ali, bem no meio do deserto em um momento inesperado. Ele se abaixou, tocou a flor e ela se despetalou completamente.
O homem ficou desolado e guardou as pétalas no bolso, como lembrança do momento surpreendente que vivera, ainda que fosse também triste.
Caminhou por mais algum tempo e, de repente, o vento parou de soprar. O homem ficou preocupado, pensando que não conseguiria, assim, seguir por muito tempo. Ele se deitou no chão por um instante. Uma pétala caiu de seu bolso e tocou mais uma vez a areia do deserto.
De súbito, a pétala transformou-se em algo diferente. O homem a tocou e viu que ela tinha a forma de uma concha, menor que a palma de sua mão, do tamanho de uma colher de sopa. Dentro da concha havia água e o homem, agradecido, bebeu.
A água, embora parecesse tão pouca, foi suficiente para que o homem criasse forças para seguir. Quando ele se levantou, o vento voltou a soprar e ele ficou ainda mais confiante.
Seguiu andando até que começou a ficar com sede outra vez. Teve a ideia de jogar uma das pétalas restantes no chão. Quando a pétala caiu, ela virou pó e foi embora com o vento.
O homem ficou confuso e seguiu andando mais um pouco pensando sobre o que acontecera, . Colocou a mão no bolso onde estavam as outras pétalas e decidiu jogar mais uma no chão para ver o que aconteceria. Outra vez a pétala se desfez e o vento levou seus resquícios para longe.
Restavam três pétalas e o homem não sabia o que fazer. Estava com sede e, depois dessas tristes ocorrências, perdera a força para continuar.
Deitou-se mais uma vez na areia e, sem perceber, mais uma pétala caíra no chão. Não demorou para que ele notasse a transformação. Desta vez, a pétala, em formato de concha, tinha o tamanho de uma xícara e dentro dela tinha água fresca.
O homem não conteve sua surpresa e bebeu a água confuso e agradecido. Se revigorou e recomeçou sua caminhada.
Seus passos deixavam clara sua confusão sobre tudo o que acontecera. Distraído do caminho, o homem começou a andar mais devagar. Percorreu uma distância menor e já estava novamente com sede, mesmo tendo bebido mais água. Começou a pensar o quanto queria chegar em casa.
Achou que o certo seria deitar e esperar que a pétala caísse. Faltavam mais duas. Ficou deitado bastante tempo e nenhuma pétala caiu. O homem começou a chorar, sem entender nada do que estava acontecendo. Ele estava cansado.
Levantou-se porque não sabia mais o que fazer e notou que uma pétala caíra. Olhou para trás e lá estava ela: agora em formato de concha tinha o tamanho de uma chaleira. Bebeu só um pouco de água e estava satisfeito, então seguiu levando o restante consigo.
Ele parecia ter se encontrado em seu próprio corpo e percebia com mais clareza quando precisava beber a água e quando já estava satisfeito. Caminhou por mais um tempo e a água acabou. A pétala em forma de concha desapareceu.
O homem seguiu caminhando e começou a sentir sede outra vez, mas resolveu não parar até que seu corpo realmente precisasse de descanso. Foi então que ouviu as batidas de seu coração. Naquele instante caiu a última pétala.
Ele não conseguia ver o que tinha acontecido. Já era noite e estava tudo escuro. Abaixou-se e tateou o ar procurando a pétala em forma de concha. Não a encontrou.
Prosseguiu, então, já que seu corpo não dera sinais de necessitar descanso. Andou por mais algum tempo e percebeu que o clima mudara. Começou a sentir frio. Parou um instante e olhou à sua volta. Ele conhecia intimamente aquele lugar: estava em frente à sua casa. Entrou.
Em cima da mesa, uma concha do tamanho de um jarro lhe dava as boas vindas.
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mais um conto de escrita livre sem revisão escrito em 2020.
Em uma floresta cheia de árvores grandiosas e flores coloridas havia um espaço como um jardim muito bem cuidado. Todos os dias um homenzinho bem pequeno vestido com um chapéu pontudo e roupas vermelhas passeava pelo jardim com um cesto na mão. Ninguém sabia o que ele fazia lá. Parecia que estava apenas passeando mas, sempre que ele acabava de sair, o jardim se transformava e ficava cada dia mais bonito.
Um dia o homenzinho, que muitos chamavam de duende, parou de visitar o jardim. A cada dia que passava, o mato crescia e o jardim ia se transformando, até que ficou irreconhecível. Os animais que moravam em volta e visitavam o jardim começaram a ficar preocupados, se perguntando onde estaria o duende. Acostumados com o jardim bem cuidado, achavam que o espaço estava ficando feio.
Certo dia passou por lá um menino que parecia estar procurando algo. Os animais ficaram atentos aos seus movimentos temendo que ele maltratasse ainda mais o jardim. O menino se abaixou de súbito, como se tivesse encontrado justo aquilo de que precisava, saiu saltitando pela floresta e desapareceu. No dia seguinte, uma menina apareceu e aconteceu a mesma coisa. No outro dia também mais uma criança fez os mesmos movimentos.
Os animais, curiosos, resolveram ver como as crianças iniciavam o caminho da floresta e viram que elas estavam sempre com medo, sem saber muito bem se eram capazes de seguir. Acompanhando os meninos e meninas até o final, viram que saíam transformados, cheios de confiança em si mesmos, carregando em suas mãos aquilo que estavam procurando.
Várias crianças passaram por lá e, ao mesmo tempo em que isso ia acontecendo, o jardim ia mudando de aparência. As crianças levavam consigo sementes de frutas que tinham comido no percurso, e, criando seu caminho para encontrarem o que estava perdido, quebravam galhos que justo precisavam ser cortados, pisavam e abriam espaço no mato.
Alguns dias depois o jardim estava belo novamente. Os animais ficaram intrigados com aquilo que aconteceu e queriam descobrir o que se passou, mas não faziam ideia do que poderiam fazer. Não fizeram nada, continuaram apenas a vigiar.
Passou um tempo e o jardim começou a perder a força de novo e, para a surpresa dos animais, o homenzinho voltara com seu cesto, passando e transformando o jardim. Resolveram segui-lo para descobrir seu segredo.
Foi então que o viram entrar na casa de uma criança que tinha um rosto que parecia faltar cor, e pegar um objeto, deixando em seu lugar um papel. Isso foi acontecendo em várias casas de crianças que pareciam um pouco perdidas, como se não estivessem felizes em ser quem eram.
Os animais acharam aquilo muito estranho e, dias depois, ao verem que o duende desaparecera da cidade, voltaram para a floresta para perguntá-lo o que estava fazendo, mas, novamente, o duende não voltou. O tempo passou e o jardim mudou de novo.
Depois de alguns dias, começou a chegar um menino que os animais já tinham visto antes. A criança parecia procurar algo, encontrou e saiu saltitante, muito feliz. Da mesma forma, passaram muitas crianças e a última deixou cair um papel no chão. Era aquele que o duende deixara no lugar do objeto da criança. No papel estava escrito: "Nunca se perde o que sempre esteve em você. Siga o seu caminho e você verá tudo o que pode acontecer." e atrás estava desenhado um mapa que levava até o objeto perdido.
O jardim voltou a ser belo, mas algo mudou. Os animais, naquele dia, se viram livres para seguirem seu caminho e pararam de vigiar o jardim, indo apenas visitá-lo. Não percebiam, mas quando lá passavam levavam sementes das frutas que comiam, das plantas que cheiravam e trilhando o seu próprio caminho ajudavam o jardim a ficar cada dia mais belo.
O duende e as crianças voltaram ao jardim, mas o homenzinho não levava mais o cesto e os meninos não pareciam procurar nada. Todos pareciam ter tudo o que precisavam.
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este é mais um dos contos sem revisão que eu escrevi em 2020.
Era uma vez uma coletora de lágrimas que passava o dia inteiro coletando as águas caídas dos olhos de quem chorava, fosse de tristeza ou alegria.
Ela pegava seus baldes cheios de emoção e regava as florestas do mundo. Olhava de cima, orgulhosa, contemplando o trabalho que fazia. Nunca tocava aquelas águas e nenhuma lágrima dela saía.
As plantas cresciam belas, mas, de alguma forma, limitadas. Ela começou a se esforçar para provocar mais choro a cada dia, mas a verdade é que, em algum momento, as plantas continuavam parando de se desenvolver, como ela percebia.
Intrigada com tudo isso, sem saber o que fazer, girando de um lado pro outro, do alto de sua vigília, a coletora caiu e, pela primeira vez, sentiu com todo o corpo o chão.
Pela primeira vez sentiu as águas rolarem em seu rosto. Caíram suas primeiras lágrimas. Ao mesmo tempo, águas começaram a cair do céu que se misturavam com as suas.
Ela se uniu às flores e chorou toda tristeza e alegria de sentir. Agora as flores cresciam e se desenvolviam tanto que ela não mais as olhava por cima. Deixou de ser coletora de lágrimas e agora só vivia.
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este é o segundo conto de uma série de pequenos contos sem revisão que escrevi em 2020
Era uma vez uma semente que caíra do bolso de uma menina que passeava pela floresta.
Passou por dias frios, chuvosos, foi pisoteada e afundou na terra. O que ninguém sabia era que a semente soterrada naquele exato lugar se transformaria em gente.
No instante em que parecia tudo perdido, da morte iminente, brotou a menina, saindo da terra como se fosse planta.
A menina vestia desde sempre um chapéu feito de folhas. Pensava que tinha de ficar sempre assim, cobrir sempre sua cabeça com aquele acessório feito de planta. Tinha medo de mudar, perder o encanto e voltar a se tornar semente.
Um dia encontrou um lobo que contou sua história e era também mágica. Ela nunca se encontrara com ninguém que a entendesse tanto.
O lobo parecia saber de tudo o que existe e ela passou a segui-lo. Depois de um tempo o lobo criou uma armadilha para a menina. Ela caiu num buraco fundo e escuro e precisava ficar lá sozinha.
O lobo todo dia chegava lá em cima e perguntava como ela estava.
Primeiro ela não entendia o que ele queria e ficava furiosa. Com o passar dos dias ela começou a pensar que o lobo a estava ajudando e ela só não compreendia ainda. Depois dessa resignação o lobo não voltou mais.
Desesperada, ela não via saída. Chorava o tempo todo. Passou dias sem comer e beber nada, já que o lobo não levara mais comida.
Quase sem forças, a menina levantou-se e, sabendo que era seu fim, tirou o chapéu, em uma mistura de fúria com desistência. Quando o fez, seus cabelos vivos expulsaram uma chave de brilho intenso.
A luz iluminou o espaço e à sua frente ela avistou uma porta. A fechadura tinha justo a forma da chave. Ela abriu.
Voltou para o mundo e se viu semente.
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escrevi em abril de 2020, em um encontro online com um amigo querido, inspirada na imagem de uma carta. eu escrevi 18 pequenos contos nesse estilo e agora fiquei com vontade de compartilhar aqui. vou ver como me sinto.