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pollyanna 1 year ago
eu quero vir aqui escrever coisas novas, mas por enquanto eu deixo essas coisas antigas por aqui, até porque são sempre novas quando alguém lê. escrevi isto em 2016 e estava falando da minha experiência andando pela rua - que mudou tanto, mas sinto que agora estou voltando a viver aos poquinhos algo parecido - e me lembra um pouco a experiência que vou estou tendo aqui também com vocês. inclusive a mudança na minha experiência de caminhadas lá fora teve inspiração de pessoas queridas daqui. :) -- tenho caminhado mais do que o meu costume, quase duas horas por dia. nos caminhos que crio sempre encontro pessoas. às vezes as mesmas, que, na verdade, mesmas nunca são, ainda que tenha passado apenas um segundo desde a última vez em que nos vimos, mas isso nem precisava dizer. nesses encontros eu vejo gente que nunca antes vira. gente com quem nunca falei e que me recebe com um sorriso daqueles em que mostramos os dentes e ficamos com os olhos pequenininhos. viramos conhecidos sem saber os nomes um do outro. e de tanto sorrirmos, dia após dia, num desses nos abraçamos. o moço vestido todo de branco com os cabelos da mesma cor me abraçou na segunda-feira. o moço de roupa listrada e cabelos pretos e brancos me abraçou na quinta, hoje. um perguntou de onde vim, o outro quis saber se estava triste. de cada um ganhei dois abraços. depois da despedida seguimos a vida: eles voltaram para seus trabalhos e eu voltei a caminhar, achando tudo muito engraçado, confesso,e bonito também.
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pollyanna 1 year ago
mais um conto escrito em 2020. eu fico com um pouco de vergonha de compartilhar porque é uma escrita livre e intuitiva e cheia de lacunas, mas tem sido uma experiência interessante soltar esses textos. -- Esta história começa em alta velocidade. Uma criança descia um morro com o seu trenó. Era inverno e estava tudo branquinho, coberto pela neve. O menino estava despreocupado se divertindo e, ao mesmo tempo, concentrado em sua direção. Ele passava pelas curvas virando o corpo inteiro e seguia seu caminho veloz. Em certo momento ele avistou já no final da descida, ao seu lado direito, uma menina encolhida pelo frio. Ele parou seu trenó devagar para não se machucar e não assustá-la, então acabou passando um pouco do lugar onde ela estava. Deixou o trenó encostado na parede perto de onde tinha parado e foi ao encontro da menina. Ela estava cabisbaixa, numa mistura de vergonha e tristeza. O menino perguntou o que ela estava fazendo lá sozinha e se precisava de alguma coisa. Ela apenas balançou a cabeça sinalizando “não”, sem dizer mais nada. Nem olhou para ele. O menino ficou intrigado sem entender nada e resolveu ficar parado ao lado dela um pouco. Ele tinha muita dificuldade de lidar com o silêncio e com a espera, mas achava que precisava ajudar a menina, então permaneceu lá, quieto. Foi então que apareceu uma moça usando um vestido longo e com semblante tranquilo. A menina a olhou nos olhos e seguiu ao seu lado. A mulher carregava nos braços uma cesta coberta com um pano. O menino ficou curioso para saber o que tinha dentro e foi correndo perguntar. A moça olhou para ele com um sorriso doce e balançou a cabeça com um sinal negativo. As duas seguiram e o menino ficou muito confuso. Decidiu voltar para casa, já estava ficando tarde. Ao chegar, preparou seu jantar, comeu e foi para a cama pensativo. Não conseguiu dormir tentando desvendar quem seriam aquelas duas estranhas com quem se encontrara. Amanheceu, o menino preparou seu café e saiu novamente. Ele entregava jornais nas casas das pessoas e sempre lhes deixava um pequeno presente. Quando passou de novo por aquele lugar, a menina estava lá, parada, esperando. Dessa vez não tinha mais um semblante envergonhado e triste. Estava tranquila, olhando para frente. O menino resolveu parar mais uma vez. Andou até a menina e lhe desejou um bom dia. A menina olhou para ele e sorriu. Ele perguntou, então, o que ela fazia ali e quem era aquela moça com quem saíra no dia anterior. A menina olhou com carinho para ele, mas balançou a cabeça como quem diz “não”. O menino ficou muito confuso e resolveu esperar pela mulher. Quando ela chegou, lhe fez muitas perguntas. Foi olhado com amor, mas não ouviu uma palavra. Ela apenas fez “não” com a cabeça. O menino foi embora frustrado. Chegou em casa e não jantou, foi direto para cama. Chorou muito. Sentia uma tristeza profunda que ele nem sabia que tinha. Acabou dormindo e sonhou e que estava em um lugar com muitas pessoas, todas em harmonia e felicidade. Parecia ser uma família. Quando acordou, estava acompanhado apenas da tristeza. Tomou seu café e saiu. Quando começou a fazer o seu percurso, reparou que em cada casa havia uma caixa com seu nome. Preocupado em fazer seus deveres e ajudar as pessoas o mais rápido possível, ele nunca as tinha percebido. Ele pegou cada caixa e viu que dentro estavam depositados vários bilhetes com palavras de agradecimento e carinho. As pessoas lhe escreviam contando como suas vidas eram iluminadas pela dele. O menino ficou muito emocionado e seguiu o seu caminho, até que encontrou a menina. Ela estava sorrindo, vendo os pássaros voando, sentindo o vento em sua pele. Ele se aproximou da garota e começou a contar-lhe tudo o que acontecera e como se sentia. A menina lhe deu um abraço e disse, sem que ele perguntasse, que a mulher era sua mãe e ela a esperava todos os dias para que voltassem juntas para casa. Seguiu dizendo: “eu às vezes ficava triste porque eu sempre quisera um irmão e não tive, mas não demorava a ficar feliz, afinal tenho a companhia da minha mãe.” O menino a ouviu atento e com o coração cheio de amor. A mãe da menina logo chegou e, encontrando os dois, mostrou o que havia na cesta: eram três pães. Não precisou dizer mais nada. O menino pegou seu trenó e os três foram embora juntos, em passos lentos.
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pollyanna 1 year ago
fotos de hoje e um texto que escrevi há sete anos. no começo a escuridão não incomodava ninguém, na verdade nem era sequer questionada. apenas existia e imersa nela estava o mundo conhecido. inclusive eu, que um dia abri os olhos e enxerguei, devagar, a luz. aos poucos fui me esquecendo do conforto que senti na escuridão e quis permanecer onde estava iluminado. cheguei a sentir medo quando o sol dava lugar à lua e eu só conseguia enxergar vultos de objetos reais misturados com alguns criados em minha imaginação. eu temia a escuridão que me saltava aos olhos e as profundezas de mim. achei que poderia fugir, porque recursos encontrei em toda parte. mas eu caí. e no poço fundo e intenso do meu próprio ser eu vi de novo a escuridão. e eu não podia acender a luz no lugar em que me encontrava, teria de aprender a aceitar e acolher a escuridão exatamente como era. foi desesperador e eu achei, por alguns segundos, que nunca mais veria a claridade novamente. mas, lentamente, o sufoco intenso foi dando lugar a um conforto e uma sensação de confiança foi tomando conta de mim. quanto mais eu aceitava a escuridão, mais nítidas iam se formando as imagens dos objetos que estavam à minha frente. até que vi o contorno de uma porta. abri.
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pollyanna 1 year ago
"Le doy gracias a la muerte por enseñarme a vivir"
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pollyanna 1 year ago
Eu avistava o céu e percorria o espaço entre nuvens brancas que tinham forma aconchegante e aveludada. Para alguns isso parece um sonho, mas para mim era a realidade que me atravessava. Eu não tinha escolha: estar nas alturas era aquilo que mantinha em fluxo, ativa, minha pulsão de vida. Quando o vento soprava no sentido oposto ao que eu voava, ele me trazia o frescor necessário para continuar. Sua força movia todas as minhas estruturas e me ajudava a seguir renovado. Quando soprava na mesma direção, eu seguia com fluidez e sentia companhia. Numa dessas viagens, avistei um ninho com pequenos pássaros, sem nenhum outro que os cuidasse por perto. Eles estavam famintos e tomei a decisão quase de imediato ao me aproximar deles. Fui em busca de alimento imaginando que quando voltasse eles estariam sendo cuidados. Ao retornar vi que seguiam do mesmo jeito. Passei a alimentá-los todos os dias. Minhas rotas, até então espontâneas, começaram a ter um destino bem claro. Apesar das mudanças, eu me sentia muito feliz com aquela nova vida. Até que um dia um dos pássaros caiu do ninho e se perdeu. Fiquei confuso pensando no que poderia ter feito de errado e como poderia ter agido para evitar aquilo. Mas logo fui interrompido por intermináveis sons daqueles que ainda estavam no ninho. Recobrei minha atenção para o fato de que havia um pássaro caído e fui atrás dele. Durante o percurso, muitos medos me visitaram, mas, a todo o tempo, algo me trazia de volta à realidade. O vento, as folhas caídas, as borboletas e formigas. Foi então que o vi. Escondido, quietinho embaixo de uma folha. Estava com medo e machucado, mas assim que me viu veio ao meu encontro. Seguimos de volta ao ninho e eu soube: eles estão prontos para voar! O conduzi até sua casa e percebi que todos estavam ansiosos para explorar o mundo e ir além daquela pequena contenção. Eu não fazia ideia de como poderia ensiná-los a voar. Comecei a observá-los. Examinei com cuidado a estrutura física de cada um. Todos tinham corpos cobertos por penas, todos tinham bico - todos tinham asas em perfeito estado. Até mesmo aquele que caíra já tinha se recuperado. Fiquei atento às suas asas. Vi como as levantavam e, por si mesmos, percebiam seus efeitos. Observei cada um deles por alguns dias, sem fazer ou dizer nada. Quando chegava o momento da minha partida, eles ficavam me olhando, atentos e sempre que eu voltava me recebiam ansiosos. Eu sabia que estavam prontos para voar, mas eu ainda estava envolto por uma nuvem de insegurança por não saber ensinar. Um dia, quase chegando ao ninho, fui atingido por algo que até hoje não sei bem o que era. Apenas senti que era pontiagudo. Assim que me acertou não pude mais seguir - caí sem conseguir me segurar em nada. Fiquei machucado e doía muito quando tentava me mover. Fiquei preocupado, pensando no que os passarinhos fariam sem mim. Eu não tinha levado comida, iam se sentir abandonados, podiam ser atacados por pássaros maiores. Naquele momento em que eu via apenas o chão, nada me trazia de volta ao que eu estava vivendo. Eu só conseguia pensar nos pequenos. Até que avistei um bicho grande que não identifiquei bem qual era. Consegui me arrastar até uma pedra que se misturava com algumas folhas e me escondi. Precisei lidar com a dor, eu não podia mais fugir. Eu estava, inevitavelmente, ali. Preso, sem conseguir me mover direito, me sentindo ameaçado a todo momento. Alguns animais se aproximavam, chegavam bem perto, até, mas, por sorte, nunca me viam. De repente, o vento soprou tão forte que moveu as folhas onde eu me escondia e eu vi, lá do alto, um bando chegar. O sol batia atrás deles e eu só conseguia ver pássaros pretos se aproximando. Temi que fosse o meu fim. E eu não estava bem, tranquilo. Eu não partiria com serenidade. Fechei meus olhos, com a esperança de me acalmar, e senti um toque, e outro, e outro, e mais um. Eram toques sutis, então não resisti e abri meus olhos. À minha volta estavam os passarinhos, criando, com seus corpos, um novo e diferente ninho. -- mais um conto de 2020, escrito livremente.
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pollyanna 1 year ago
fiquei com vontade de compartilhar este texto aqui. eu não sei de quando ele é, talvez de 2021. -- tem algo que pulsa em mim e está quase pronto pra morrer e dar lugar à novidade mas eu tenho medo demais então faço bolos junto ingredientes invento combinações acendo o fogo coloco no forno é meio impressionante que de uma massa estranha surja um bolo deixo o trabalho de transmutação pra ele e adio o meu tenho medo de me deixar arder de integrar toda desconexão que de repente surge em encontro e abrir espaço pra que eu mesma emerja tenho medo de me relacionar profundamente com os outros de sentir a pele tenho medo do contato então eu faço bolos que as pessoas tocam e eu fico só de longe observando e torcendo pra que gostem e quando gostam eu quero fazer mais bolos quando não gostam, também o que está quase pronto pra morrer é o medo, a aversão ao contato ao toque, às relações diretas o que está quase pronto pra morrer é o medo do prazer, da alegria e da celebração o que está quase pronto pra morrer é o medo de deixar arder o que é intenso sentir o que está quase pronto para morrer é a abertura para experimentar para além do gostar ou não gostar antes de seguir com isso vou lá no forno buscar o bolo que está pronto e vou eu mesma comer
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pollyanna 1 year ago
Um homem caminhava sozinho no deserto. Um lenço em sua cabeça o protegia do calor. O vento lhe fazia companhia e aliviava o percurso. De longe avistou uma flor. Pensou logo que devia ser uma miragem, já que àquela altura, no meio do deserto, era improvável que encontrasse tão nítido broto de vida. Foi se aproximando e a imagem não se desvanecia. Era mesmo uma flor ali, bem no meio do deserto em um momento inesperado. Ele se abaixou, tocou a flor e ela se despetalou completamente. O homem ficou desolado e guardou as pétalas no bolso, como lembrança do momento surpreendente que vivera, ainda que fosse também triste. Caminhou por mais algum tempo e, de repente, o vento parou de soprar. O homem ficou preocupado, pensando que não conseguiria, assim, seguir por muito tempo. Ele se deitou no chão por um instante. Uma pétala caiu de seu bolso e tocou mais uma vez a areia do deserto. De súbito, a pétala transformou-se em algo diferente. O homem a tocou e viu que ela tinha a forma de uma concha, menor que a palma de sua mão, do tamanho de uma colher de sopa. Dentro da concha havia água e o homem, agradecido, bebeu. A água, embora parecesse tão pouca, foi suficiente para que o homem criasse forças para seguir. Quando ele se levantou, o vento voltou a soprar e ele ficou ainda mais confiante. Seguiu andando até que começou a ficar com sede outra vez. Teve a ideia de jogar uma das pétalas restantes no chão. Quando a pétala caiu, ela virou pó e foi embora com o vento. O homem ficou confuso e seguiu andando mais um pouco pensando sobre o que acontecera, . Colocou a mão no bolso onde estavam as outras pétalas e decidiu jogar mais uma no chão para ver o que aconteceria. Outra vez a pétala se desfez e o vento levou seus resquícios para longe. Restavam três pétalas e o homem não sabia o que fazer. Estava com sede e, depois dessas tristes ocorrências, perdera a força para continuar. Deitou-se mais uma vez na areia e, sem perceber, mais uma pétala caíra no chão. Não demorou para que ele notasse a transformação. Desta vez, a pétala, em formato de concha, tinha o tamanho de uma xícara e dentro dela tinha água fresca. O homem não conteve sua surpresa e bebeu a água confuso e agradecido. Se revigorou e recomeçou sua caminhada. Seus passos deixavam clara sua confusão sobre tudo o que acontecera. Distraído do caminho, o homem começou a andar mais devagar. Percorreu uma distância menor e já estava novamente com sede, mesmo tendo bebido mais água. Começou a pensar o quanto queria chegar em casa. Achou que o certo seria deitar e esperar que a pétala caísse. Faltavam mais duas. Ficou deitado bastante tempo e nenhuma pétala caiu. O homem começou a chorar, sem entender nada do que estava acontecendo. Ele estava cansado. Levantou-se porque não sabia mais o que fazer e notou que uma pétala caíra. Olhou para trás e lá estava ela: agora em formato de concha tinha o tamanho de uma chaleira. Bebeu só um pouco de água e estava satisfeito, então seguiu levando o restante consigo. Ele parecia ter se encontrado em seu próprio corpo e percebia com mais clareza quando precisava beber a água e quando já estava satisfeito. Caminhou por mais um tempo e a água acabou. A pétala em forma de concha desapareceu. O homem seguiu caminhando e começou a sentir sede outra vez, mas resolveu não parar até que seu corpo realmente precisasse de descanso. Foi então que ouviu as batidas de seu coração. Naquele instante caiu a última pétala. Ele não conseguia ver o que tinha acontecido. Já era noite e estava tudo escuro. Abaixou-se e tateou o ar procurando a pétala em forma de concha. Não a encontrou. Prosseguiu, então, já que seu corpo não dera sinais de necessitar descanso. Andou por mais algum tempo e percebeu que o clima mudara. Começou a sentir frio. Parou um instante e olhou à sua volta. Ele conhecia intimamente aquele lugar: estava em frente à sua casa. Entrou. Em cima da mesa, uma concha do tamanho de um jarro lhe dava as boas vindas. --- mais um conto de escrita livre sem revisão escrito em 2020.
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pollyanna 1 year ago
Em uma floresta cheia de árvores grandiosas e flores coloridas havia um espaço como um jardim muito bem cuidado. Todos os dias um homenzinho bem pequeno vestido com um chapéu pontudo e roupas vermelhas passeava pelo jardim com um cesto na mão. Ninguém sabia o que ele fazia lá. Parecia que estava apenas passeando mas, sempre que ele acabava de sair, o jardim se transformava e ficava cada dia mais bonito. Um dia o homenzinho, que muitos chamavam de duende, parou de visitar o jardim. A cada dia que passava, o mato crescia e o jardim ia se transformando, até que ficou irreconhecível. Os animais que moravam em volta e visitavam o jardim começaram a ficar preocupados, se perguntando onde estaria o duende. Acostumados com o jardim bem cuidado, achavam que o espaço estava ficando feio. Certo dia passou por lá um menino que parecia estar procurando algo. Os animais ficaram atentos aos seus movimentos temendo que ele maltratasse ainda mais o jardim. O menino se abaixou de súbito, como se tivesse encontrado justo aquilo de que precisava, saiu saltitando pela floresta e desapareceu. No dia seguinte, uma menina apareceu e aconteceu a mesma coisa. No outro dia também mais uma criança fez os mesmos movimentos. Os animais, curiosos, resolveram ver como as crianças iniciavam o caminho da floresta e viram que elas estavam sempre com medo, sem saber muito bem se eram capazes de seguir. Acompanhando os meninos e meninas até o final, viram que saíam transformados, cheios de confiança em si mesmos, carregando em suas mãos aquilo que estavam procurando. Várias crianças passaram por lá e, ao mesmo tempo em que isso ia acontecendo, o jardim ia mudando de aparência. As crianças levavam consigo sementes de frutas que tinham comido no percurso, e, criando seu caminho para encontrarem o que estava perdido, quebravam galhos que justo precisavam ser cortados, pisavam e abriam espaço no mato. Alguns dias depois o jardim estava belo novamente. Os animais ficaram intrigados com aquilo que aconteceu e queriam descobrir o que se passou, mas não faziam ideia do que poderiam fazer. Não fizeram nada, continuaram apenas a vigiar. Passou um tempo e o jardim começou a perder a força de novo e, para a surpresa dos animais, o homenzinho voltara com seu cesto, passando e transformando o jardim. Resolveram segui-lo para descobrir seu segredo. Foi então que o viram entrar na casa de uma criança que tinha um rosto que parecia faltar cor, e pegar um objeto, deixando em seu lugar um papel. Isso foi acontecendo em várias casas de crianças que pareciam um pouco perdidas, como se não estivessem felizes em ser quem eram. Os animais acharam aquilo muito estranho e, dias depois, ao verem que o duende desaparecera da cidade, voltaram para a floresta para perguntá-lo o que estava fazendo, mas, novamente, o duende não voltou. O tempo passou e o jardim mudou de novo. Depois de alguns dias, começou a chegar um menino que os animais já tinham visto antes. A criança parecia procurar algo, encontrou e saiu saltitante, muito feliz. Da mesma forma, passaram muitas crianças e a última deixou cair um papel no chão. Era aquele que o duende deixara no lugar do objeto da criança. No papel estava escrito: "Nunca se perde o que sempre esteve em você. Siga o seu caminho e você verá tudo o que pode acontecer." e atrás estava desenhado um mapa que levava até o objeto perdido. O jardim voltou a ser belo, mas algo mudou. Os animais, naquele dia, se viram livres para seguirem seu caminho e pararam de vigiar o jardim, indo apenas visitá-lo. Não percebiam, mas quando lá passavam levavam sementes das frutas que comiam, das plantas que cheiravam e trilhando o seu próprio caminho ajudavam o jardim a ficar cada dia mais belo. O duende e as crianças voltaram ao jardim, mas o homenzinho não levava mais o cesto e os meninos não pareciam procurar nada. Todos pareciam ter tudo o que precisavam. -- este é mais um dos contos sem revisão que eu escrevi em 2020.
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pollyanna 1 year ago
Era uma vez uma coletora de lágrimas que passava o dia inteiro coletando as águas caídas dos olhos de quem chorava, fosse de tristeza ou alegria. Ela pegava seus baldes cheios de emoção e regava as florestas do mundo. Olhava de cima, orgulhosa, contemplando o trabalho que fazia. Nunca tocava aquelas águas e nenhuma lágrima dela saía. As plantas cresciam belas, mas, de alguma forma, limitadas. Ela começou a se esforçar para provocar mais choro a cada dia, mas a verdade é que, em algum momento, as plantas continuavam parando de se desenvolver, como ela percebia. Intrigada com tudo isso, sem saber o que fazer, girando de um lado pro outro, do alto de sua vigília, a coletora caiu e, pela primeira vez, sentiu com todo o corpo o chão. Pela primeira vez sentiu as águas rolarem em seu rosto. Caíram suas primeiras lágrimas. Ao mesmo tempo, águas começaram a cair do céu que se misturavam com as suas. Ela se uniu às flores e chorou toda tristeza e alegria de sentir. Agora as flores cresciam e se desenvolviam tanto que ela não mais as olhava por cima. Deixou de ser coletora de lágrimas e agora só vivia. -- este é o segundo conto de uma série de pequenos contos sem revisão que escrevi em 2020