mais um conto de 2020
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Duas caixas de madeira empilhadas estavam encostadas na parede. Alguns passos à frente delas havia um poço onde um homem coletava água com um balde também de madeira.
O homem levara uma bacia de alumínio e a colocou ao lado do poço. Aos poucos ele a ia enchendo com a água.
Quando terminou de encher, o homem pegou a bacia e foi caminhando até as caixas. Poucos metros acima delas se podia ver uma mulher esperando na janela. O homem a olhou quando chegou. Sorriu e, ao vê-la assentir com a cabeça, subiu nas caixas, levantou a bacia esticando seus braços e entregou-lhe.
Ela rapidamente dispôs o utensílio em cima de uma estante, embebedou um pano no líquido e foi ao encontro de uma mulher que estava deitada na cama com o rosto molhado de suor.
A mulher não parecia bem. Estava movendo seu corpo como quem sente desconforto em qualquer posição. A cuidadora, com o pano em mãos, o deslizou em sua testa com delicadeza e cuidado.
A mulher na cama estava com os olhos pequenos, quase fechados, como quem precisa prestar atenção em seu mundo interno. Mas assim que a outra passou o pano pela terceira vez, dando leves batidinhas, ela abriu seus olhos completamente, como se voltasse de uma viagem interna profunda e estivesse perplexa com tudo o que ocorrera lá.
Aos poucos foi se levantando, se vestindo e descendo as escadas - para a surpresa de todos que dela cuidavam. Ela parecia confiante, mas, ao chegar no meio da escada, tropeçou em seu próprio pé e caiu rolando por alguns degraus.
Todos escutaram o barulho e vieram correndo acudi-la. Ela se sentou em um dos degraus, com as mãos abraçando os joelhos, e chorou. Ficou por alguns minutos nesse estado, até que olhou para todos à sua volta e agradeceu.
A mulher que cuidava dela e o homem que pegara a água a ajudaram a se levantar com suavidade foram até a sala para que ela se sentasse em uma poltrona. Ela se sentou e pediu um chá.
Enquanto esperava, pegou um papel e uma caneta que estavam em cima da mesa ao lado e começou a escrever uma carta com os dizeres: "Estou cansada. Por toda minha vida precisei ser forte e, na verdade, nem me lembro mais o motivo. Ser forte, para mim, era estar sempre pronta para meus afazeres e não me deixar abater por emoções tolas ou doenças quaisquer. Ser forte era ser respeitada pelos outros, ainda que sentissem também um pouco de medo. Mas isso tudo parece ter ido longe demais. Não tenho forças para controlar sequer minhas pernas, que dirá outras pessoas com quem convivo. Eu desisto. Me entrego a essa tristeza que me procura há tempos, sem cessar. Com ela vou dormir e, quem sabe, não mais acordar."
Deixou os escritos sobre a mesa e em cima colocara a caneta que rolou e caiu no chão. Abandonou seu corpo, que amoleceu completamente, com a cabeça caindo por cima do braço da poltrona. Seus olhos abertos e tristes demonstravam que ela tinha sido absorvida pela emoção.
Ela dava lentas piscadas e em algum momento dormiu. Sonhou que estava em uma bela paisagem verde com um lago ao fundo e ao lado dela estava sua mãe, que morrera quando ela era ainda pequena. Ela se despiu completamente e entrou no rio, mergulhando em suas profundezas.
Lá de dentro ela podia ver com nitidez tudo o que acontecia na superfície e viu sua mãe feliz vendo-a desfrutar daquilo tudo. Ela levantava e mergulhava novamente, vendo tudo com cada vez mais clareza. Foi então que viu chegar uma criança muito parecida com ela. A menina se aproximou e deu as mãos para a mãe da mulher e as duas foram embora felizes e tranquilas.
Naquele momento, a cuidadora tropeçara na caneta no chão ao chegar com o chá e mulher despertou. Olhou para o chá e para sua fiel companheira e chorou. Abraçou-a, pegou a carta e saiu sem tomar o chá. Ela havia se curado.
pollyanna
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presença para reparar as sutilezas


outro conto de 2020
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Aquela escada parecia interminável e a moça que a subia, por muitas vezes, precisou se apoiar na parede ao lado. Ela estava cansada e com seus joelhos doloridos mas, ainda assim, subia.
Em um desses momentos de descanso, a mulher olhou para o degrau em que estava e viu uma mancha preta com um formato circular. A moça passou seus dedos na mancha e viu que conseguira limpar a escada, mas ficou com seus dedos sujos.
Continuou seguindo e no próximo descanso viu mais alguma coisa no degrau onde estava. Era uma mancha branca. Fez o mesmo processo e seus dedos ficaram sujos novamente. Não mais pretos. Agora estavam brancos.
Começou a subir observando cada degrau e em todos eles encontrava algo em que tocar e sempre ficava com os dedos cheios daquilo em que encostava.
O caminho foi ficando menos cansativo e a subida não parecia mais tão difícil. Estava animada e tranquila e continuou seu percurso.
Até que chegou no último degrau e, antes que ela pudesse olhar para ele, viu que não havia nada à frente - apenas o vazio. Ela se desesperou e quis voltar, mas os degraus abaixo estavam embaçados, como se fossem desaparecer a qualquer momento.
Sem conseguir olhar para frente ou para trás, olhou para baixo e viu seus pés bem apoiados naquele degrau. Junto deles havia um embrulho. Ela o abriu e sorriu. Agora sabia que podia seguir. Se lembrou que tinha tudo de que precisava para entrar no vazio e ser atravessada pelo novo que surgiria. O que estava embrulhado era um lenço com uma borboleta bordada.
mais um conto de 2020
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No centro havia uma fogueira. Uma moça de cabelos curtos estava sentada fitando o fogo com um cobertor azul cobrindo suas costas. Lágrimas rolavam por seu rosto avermelhado. Ela estava fugindo e naquele momento resolvera parar e descansar.
Ficou chorando sem se mover até que se sentiu suficientemente aquecida e foi se deitar. Precisava estar disposta e alerta para continuar seu caminho. Entrou em sua barraca e logo adormeceu, tamanho seu cansaço.
Durante a madrugada ouviu sons lá fora repetidas vezes. As sombras mostravam que eram animais, então ela ficava tranquila e voltava a dormir.
Amanheceu e quando a moça saiu da barraca havia um banquete a esperando. Ela ficou muito confusa e desconfiada e olhou pelos arredores para ver se alguém estava à espreita ou se percebia que alguém tinha passado por ali. Não parecia ter nenhum vestígio humano, apenas de animais, e era o que ela realmente tinha percebido à noite.
Uma borboleta passou na ponta do seu nariz e depois rodeou a comida, como se a convidasse para o café. A mulher decidiu que comeria, depois daquela sutileza, daquele sinal tão bonito.
Ela comeu o suficiente e resolveu guardar o restante para mais tarde. Juntou suas coisas e saiu em direção ao seu novo lar. Enquanto caminhava, ela começou a ouvir alguns sons estranhos e ficou alerta.
De repente, saltou à sua frente um tigre muito grande. Ela nunca tinha se deparado com tamanha criatura. Ele começou a rodeá-la, mas ela não teve medo. Na verdade, se sentiu segura ao encontrá-lo.
O tigre se aproximou dela e, num salto, jogou no chão a mochila que ela carregava nas costas. Naquele momento, apareceu uma borboleta. Pousou no nariz da mulher e rodeou a mochila, como antes tinha feito.
A moça entendeu que o tigre queria aquela comida, então retirou-a da mochila e deixou no chão. Quando olhou, estava sozinha novamente.
Seguiu o seu caminho pisando em folhas secas e ouvindo o barulho que surgia. Ela se sentia cada vez mais confortável. Foi então que começou a ficar com fome. Procurou comida e, por sorte, havia uma macieira bem perto.
Ela pegou duas maçãs e comeu. Pensou sobre o que acontecera antes, olhou para as frutas suculentas e resolveu levar outras duas consigo.
Seguiu caminhando até que encontrou uma fogueira com uma barraca por perto. Já era noite, bem tarde, aliás. Ela viu que alguém deitava lá dentro, com um cobertor azul cobrindo seu corpo. A moça resolveu deixar em frente à barraca as duas maçãs.
Amanheceu, a mulher saiu da barraca e, de novo, tinha seu café da manhã servido. Ela comeu as duas maçãs muito agradecida. Encontrou, finalmente, seu lar.

quando alguém nasce
tudo muda
quando alguém morre
tudo muda
a composição da vida
o que se sente
o estado de coisas
nada fica intocado
nasce alguém feito onda que toca os pés
morre alguém feito onda que se recolhe de volta à imensidão do desconhecido
às vezes leva o que trouxe
às vezes deixa algo pra trás
mas vai
e nunca volta.
outras ondas vêm
podem até trazer as mesmas coisas,
mas nunca a mesma poderá voltar.
não basta amar alguém
é preciso abraçar suas incessantes mortes em vida
viver em abertura para suas transformações
o que não é possível sem amor
amor não pela pessoa em si
mas aquele que percorre tudo e todos
-amor
toda transformação diz respeito a tudo
cada movimento a tudo afeta
diante a morte dos afetos
feito feto prestes a (re)nascer
se vive o luto
feito mãe grávida de si
cada onda um convite
olhar para as memórias
tudo o que se viveu ou deixou de viver com o outro
e se estagnou, não se moveu
convite para deixar fluir
movimentar
sentir enfim o que não podia antes
prolongar a vida juntos
vivendo de novo, mas de forma inédita, a relação
mais um conto de 2020, em escrita livre.
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Sentada na areia da praia, ela observava o mar em silêncio, segurando suas pernas com os braços que se entrelaçavam. O nariz encostava nos joelhos e só se podia ver seus olhos. A menina estava só. À sua volta apenas uma imensidão de água, areia, vento e animais que não apareciam mas estavam lá. Destes últimos, os pássaros eram os únicos que não passavam despercebidos: os olhos da menina os acompanhavam todas as vezes que passavam por seu campo de visão.
Ela estava avistando o céu, quando um deles pousou ao seu lado. Era um pássaro branco e tão grande que quase alcançava os ombros da menina naquela posição. A menina sentiu sua presença e olhou rápido, assustada. Ele a olhou também e parecia enxergar tudo, toda a profundidade dela. A menina o observou com atenção. O susto passou. Era a primeira vez que seus olhos encontravam outros, completamente desconhecidos, por tanto tempo e com plena presença.
Depois desse encontro intenso de olhares, a menina estendeu sua mão para o pássaro. Era uma gaivota - nesse momento ela se dera conta. Ele abaixou a cabeça em direção à mão e entregou-lhe um objeto. Os dedos da menina se fecharam envolvendo o presente que ela logo depositara no bolso direito de sua calça. Ficou lá por pouco tempo. O objeto caíra na areia como se tivesse um grande buraco naquela parte da roupa. Ela o segurou novamente e colocou no bolso de sua camisa, que ficava do lado esquerdo do peito. Aconteceu a mesma coisa.
A menina, àquela altura, quis recusar o presente, já que não podia escolher quando e onde colocar, mas ela tinha vivido algo tão impactante que resolveu continuar segurando o objeto.
No mesmo instante a gaivota voou e a menina voltou a ficar sozinha. Olhou para a areia que tocava seus pés e percebeu os grãos: cada um em certo lugar, todos diferentes, e a composição perfeita para a sensação que lhe surgia.
De repente, um buraco se abriu embaixo de seus pés e a menina caiu em um lugar escuro, embora confortável como um abraço. Ela abriu suas mãos e percebeu que o objeto emitia uma luz, não muito forte, mas que ajudava enxergar o que estava à sua volta. Era areia.
A menina tentou se movimentar e cada vez que o fazia a areia se movia e chegava até seus pés, começando a cobri-los. Ficou com medo de ter seu corpo inteiro coberto pelos grãos, então não se moveu mais.
Suas mãos seguiam abertas e ela sentiu-se chamada a olhar para o objeto. Era um anel com uma pedra que se assemelhava aos olhos da gaivota. Ela não tinha reparado até aquele momento. Seu olhar, então, abriu a atenção para ver e ela foi novamente fisgada. Num completo estado de presença colocou no dedo o anel.
Ouviu o barulho das ondas e olhou para cima. A gaivota estava no topo do buraco que se abrira, esperando que a menina lhe estendesse a mão. A menina assim o fez e, quando se deu conta de tudo, estava sozinha, sentada na areia, com as mãos na água. Avistou o anel sendo levado e sorriu.
Foi embora da praia caminhando devagar e sentindo o encontro de seus pés com a areia.
I loved it. and I would love to read more about your movements :)
eu quero vir aqui escrever coisas novas, mas por enquanto eu deixo essas coisas antigas por aqui, até porque são sempre novas quando alguém lê.
escrevi isto em 2016 e estava falando da minha experiência andando pela rua - que mudou tanto, mas sinto que agora estou voltando a viver aos poquinhos algo parecido - e me lembra um pouco a experiência que vou estou tendo aqui também com vocês. inclusive a mudança na minha experiência de caminhadas lá fora teve inspiração de pessoas queridas daqui. :)
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tenho caminhado mais do que o meu costume, quase duas horas por dia. nos caminhos que crio sempre encontro pessoas. às vezes as mesmas, que, na verdade, mesmas nunca são, ainda que tenha passado apenas um segundo desde a última vez em que nos vimos, mas isso nem precisava dizer. nesses encontros eu vejo gente que nunca antes vira. gente com quem nunca falei e que me recebe com um sorriso daqueles em que mostramos os dentes e ficamos com os olhos pequenininhos. viramos conhecidos sem saber os nomes um do outro. e de tanto sorrirmos, dia após dia, num desses nos abraçamos. o moço vestido todo de branco com os cabelos da mesma cor me abraçou na segunda-feira. o moço de roupa listrada e cabelos pretos e brancos me abraçou na quinta, hoje. um perguntou de onde vim, o outro quis saber se estava triste. de cada um ganhei dois abraços. depois da despedida seguimos a vida: eles voltaram para seus trabalhos e eu voltei a caminhar, achando tudo muito engraçado, confesso,e bonito também.
mais um conto escrito em 2020.
eu fico com um pouco de vergonha de compartilhar porque é uma escrita livre e intuitiva e cheia de lacunas, mas tem sido uma experiência interessante soltar esses textos.
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Esta história começa em alta velocidade. Uma criança descia um morro com o seu trenó. Era inverno e estava tudo branquinho, coberto pela neve.
O menino estava despreocupado se divertindo e, ao mesmo tempo, concentrado em sua direção. Ele passava pelas curvas virando o corpo inteiro e seguia seu caminho veloz.
Em certo momento ele avistou já no final da descida, ao seu lado direito, uma menina encolhida pelo frio. Ele parou seu trenó devagar para não se machucar e não assustá-la, então acabou passando um pouco do lugar onde ela estava.
Deixou o trenó encostado na parede perto de onde tinha parado e foi ao encontro da menina. Ela estava cabisbaixa, numa mistura de vergonha e tristeza.
O menino perguntou o que ela estava fazendo lá sozinha e se precisava de alguma coisa. Ela apenas balançou a cabeça sinalizando “não”, sem dizer mais nada. Nem olhou para ele.
O menino ficou intrigado sem entender nada e resolveu ficar parado ao lado dela um pouco. Ele tinha muita dificuldade de lidar com o silêncio e com a espera, mas achava que precisava ajudar a menina, então permaneceu lá, quieto.
Foi então que apareceu uma moça usando um vestido longo e com semblante tranquilo. A menina a olhou nos olhos e seguiu ao seu lado. A mulher carregava nos braços uma cesta coberta com um pano. O menino ficou curioso para saber o que tinha dentro e foi correndo perguntar.
A moça olhou para ele com um sorriso doce e balançou a cabeça com um sinal negativo. As duas seguiram e o menino ficou muito confuso. Decidiu voltar para casa, já estava ficando tarde.
Ao chegar, preparou seu jantar, comeu e foi para a cama pensativo. Não conseguiu dormir tentando desvendar quem seriam aquelas duas estranhas com quem se encontrara.
Amanheceu, o menino preparou seu café e saiu novamente. Ele entregava jornais nas casas das pessoas e sempre lhes deixava um pequeno presente.
Quando passou de novo por aquele lugar, a menina estava lá, parada, esperando. Dessa vez não tinha mais um semblante envergonhado e triste. Estava tranquila, olhando para frente.
O menino resolveu parar mais uma vez. Andou até a menina e lhe desejou um bom dia. A menina olhou para ele e sorriu. Ele perguntou, então, o que ela fazia ali e quem era aquela moça com quem saíra no dia anterior.
A menina olhou com carinho para ele, mas balançou a cabeça como quem diz “não”.
O menino ficou muito confuso e resolveu esperar pela mulher. Quando ela chegou, lhe fez muitas perguntas. Foi olhado com amor, mas não ouviu uma palavra. Ela apenas fez “não” com a cabeça.
O menino foi embora frustrado. Chegou em casa e não jantou, foi direto para cama. Chorou muito. Sentia uma tristeza profunda que ele nem sabia que tinha. Acabou dormindo e sonhou e que estava em um lugar com muitas pessoas, todas em harmonia e felicidade. Parecia ser uma família.
Quando acordou, estava acompanhado apenas da tristeza. Tomou seu café e saiu.
Quando começou a fazer o seu percurso, reparou que em cada casa havia uma caixa com seu nome. Preocupado em fazer seus deveres e ajudar as pessoas o mais rápido possível, ele nunca as tinha percebido. Ele pegou cada caixa e viu que dentro estavam depositados vários bilhetes com palavras de agradecimento e carinho. As pessoas lhe escreviam contando como suas vidas eram iluminadas pela dele.
O menino ficou muito emocionado e seguiu o seu caminho, até que encontrou a menina. Ela estava sorrindo, vendo os pássaros voando, sentindo o vento em sua pele.
Ele se aproximou da garota e começou a contar-lhe tudo o que acontecera e como se sentia. A menina lhe deu um abraço e disse, sem que ele perguntasse, que a mulher era sua mãe e ela a esperava todos os dias para que voltassem juntas para casa. Seguiu dizendo: “eu às vezes ficava triste porque eu sempre quisera um irmão e não tive, mas não demorava a ficar feliz, afinal tenho a companhia da minha mãe.” O menino a ouviu atento e com o coração cheio de amor.
A mãe da menina logo chegou e, encontrando os dois, mostrou o que havia na cesta: eram três pães. Não precisou dizer mais nada. O menino pegou seu trenó e os três foram embora juntos, em passos lentos.
fotos de hoje e um texto que escrevi há sete anos.
no começo a escuridão não incomodava ninguém, na verdade nem era sequer questionada. apenas existia e imersa nela estava o mundo conhecido. inclusive eu, que um dia abri os olhos e enxerguei, devagar, a luz.
aos poucos fui me esquecendo do conforto que senti na escuridão e quis permanecer onde estava iluminado. cheguei a sentir medo quando o sol dava lugar à lua e eu só conseguia enxergar vultos de objetos reais misturados com alguns criados em minha imaginação.
eu temia a escuridão que me saltava aos olhos e as profundezas de mim. achei que poderia fugir, porque recursos encontrei em toda parte.
mas eu caí. e no poço fundo e intenso do meu próprio ser eu vi de novo a escuridão. e eu não podia acender a luz no lugar em que me encontrava, teria de aprender a aceitar e acolher a escuridão exatamente como era.
foi desesperador e eu achei, por alguns segundos, que nunca mais veria a claridade novamente. mas, lentamente, o sufoco intenso foi dando lugar a um conforto e uma sensação de confiança foi tomando conta de mim.
quanto mais eu aceitava a escuridão, mais nítidas iam se formando as imagens dos objetos que estavam à minha frente. até que vi o contorno de uma porta. abri.

"Le doy gracias a la muerte
por enseñarme a vivir"
Eu avistava o céu e percorria o espaço entre nuvens brancas que tinham forma aconchegante e aveludada. Para alguns isso parece um sonho, mas para mim era a realidade que me atravessava. Eu não tinha escolha: estar nas alturas era aquilo que mantinha em fluxo, ativa, minha pulsão de vida.
Quando o vento soprava no sentido oposto ao que eu voava, ele me trazia o frescor necessário para continuar. Sua força movia todas as minhas estruturas e me ajudava a seguir renovado. Quando soprava na mesma direção, eu seguia com fluidez e sentia companhia.
Numa dessas viagens, avistei um ninho com pequenos pássaros, sem nenhum outro que os cuidasse por perto. Eles estavam famintos e tomei a decisão quase de imediato ao me aproximar deles.
Fui em busca de alimento imaginando que quando voltasse eles estariam sendo cuidados. Ao retornar vi que seguiam do mesmo jeito.
Passei a alimentá-los todos os dias. Minhas rotas, até então espontâneas, começaram a ter um destino bem claro. Apesar das mudanças, eu me sentia muito feliz com aquela nova vida.
Até que um dia um dos pássaros caiu do ninho e se perdeu. Fiquei confuso pensando no que poderia ter feito de errado e como poderia ter agido para evitar aquilo. Mas logo fui interrompido por intermináveis sons daqueles que ainda estavam no ninho.
Recobrei minha atenção para o fato de que havia um pássaro caído e fui atrás dele. Durante o percurso, muitos medos me visitaram, mas, a todo o tempo, algo me trazia de volta à realidade. O vento, as folhas caídas, as borboletas e formigas.
Foi então que o vi. Escondido, quietinho embaixo de uma folha. Estava com medo e machucado, mas assim que me viu veio ao meu encontro.
Seguimos de volta ao ninho e eu soube: eles estão prontos para voar!
O conduzi até sua casa e percebi que todos estavam ansiosos para explorar o mundo e ir além daquela pequena contenção. Eu não fazia ideia de como poderia ensiná-los a voar.
Comecei a observá-los. Examinei com cuidado a estrutura física de cada um. Todos tinham corpos cobertos por penas, todos tinham bico - todos tinham asas em perfeito estado. Até mesmo aquele que caíra já tinha se recuperado. Fiquei atento às suas asas. Vi como as levantavam e, por si mesmos, percebiam seus efeitos. Observei cada um deles por alguns dias, sem fazer ou dizer nada.
Quando chegava o momento da minha partida, eles ficavam me olhando, atentos e sempre que eu voltava me recebiam ansiosos. Eu sabia que estavam prontos para voar, mas eu ainda estava envolto por uma nuvem de insegurança por não saber ensinar.
Um dia, quase chegando ao ninho, fui atingido por algo que até hoje não sei bem o que era. Apenas senti que era pontiagudo. Assim que me acertou não pude mais seguir - caí sem conseguir me segurar em nada. Fiquei machucado e doía muito quando tentava me mover.
Fiquei preocupado, pensando no que os passarinhos fariam sem mim. Eu não tinha levado comida, iam se sentir abandonados, podiam ser atacados por pássaros maiores. Naquele momento em que eu via apenas o chão, nada me trazia de volta ao que eu estava vivendo. Eu só conseguia pensar nos pequenos.
Até que avistei um bicho grande que não identifiquei bem qual era. Consegui me arrastar até uma pedra que se misturava com algumas folhas e me escondi. Precisei lidar com a dor, eu não podia mais fugir. Eu estava, inevitavelmente, ali. Preso, sem conseguir me mover direito, me sentindo ameaçado a todo momento. Alguns animais se aproximavam, chegavam bem perto, até, mas, por sorte, nunca me viam.
De repente, o vento soprou tão forte que moveu as folhas onde eu me escondia e eu vi, lá do alto, um bando chegar. O sol batia atrás deles e eu só conseguia ver pássaros pretos se aproximando. Temi que fosse o meu fim. E eu não estava bem, tranquilo. Eu não partiria com serenidade.
Fechei meus olhos, com a esperança de me acalmar, e senti um toque, e outro, e outro, e mais um. Eram toques sutis, então não resisti e abri meus olhos. À minha volta estavam os passarinhos, criando, com seus corpos, um novo e diferente ninho.
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mais um conto de 2020, escrito livremente.
fiquei com vontade de compartilhar este texto aqui. eu não sei de quando ele é, talvez de 2021.
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tem algo que pulsa em mim
e está quase pronto pra morrer
e dar lugar à novidade
mas eu tenho medo demais
então faço bolos
junto ingredientes
invento combinações
acendo o fogo
coloco no forno
é meio impressionante
que de uma massa estranha
surja um bolo
deixo o trabalho de transmutação pra ele
e adio o meu
tenho medo de me deixar arder
de integrar toda desconexão
que de repente surge em encontro
e abrir espaço pra que eu mesma emerja
tenho medo de me relacionar profundamente
com os outros
de sentir a pele
tenho medo do contato
então eu faço bolos
que as pessoas tocam
e eu fico só de longe
observando e torcendo pra que gostem
e quando gostam
eu quero fazer mais bolos
quando não gostam, também
o que está quase pronto pra morrer
é o medo, a aversão ao contato
ao toque, às relações diretas
o que está quase pronto pra morrer
é o medo do prazer, da alegria e da celebração
o que está quase pronto pra morrer
é o medo de deixar arder
o que é intenso sentir
o que está quase pronto para morrer
é a abertura para experimentar
para além do gostar ou não gostar
antes de seguir com isso
vou lá no forno buscar o bolo
que está pronto
e vou eu mesma comer