este é o décimo quinto terceiro conto escrito em 2020. São dezoito, mas um dos primeiros ainda não consegui compartilhar.
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Em uma estrada de terra com muitas árvores ao redor, caminhava uma menina de capuz na cabeça e lenço cobrindo o nariz e a boca. Os dois acessórios tinham cor vermelha bem viva.
A menina andava saltitante de um lado para o outro da estrada, movimentando de maneira tão despreocupada a cesta que carregava em suas mãos que não parecia levar nada muito pesado ou frágil.
Percorreu um trecho curto do seu caminho e cruzou com uma cobra grande, de espessura maior que a de seu braço. A menina parou imediatamente e ficou observando o bicho atravessar de um lado para o outro fazendo um movimento que parece o contorno da letra "s".
Quando a serpente estava chegando do outro lado, a menina suspirou aliviada e o animal, de súbito, olhou em sua direção. A menina deu dois passos para frente, estufando o peito, e olhou nos olhos do bicho que ainda estava longe. Ficaram alguns segundos assim. A cobra adentrou a mata e a menina seguiu seu caminho.
Embora a garota estivesse atenta, quando chegou perto de onde a serpente passou, sentiu uma picada e desmaiou.
Quando acordou, estava dentro de uma caverna com uma fogueira, enrolada em um cobertor. Ao seu redor muitas cobras iam de um lado para o outro. A menina tinha a impressão de estar sendo vigiada por todos os cantos.
Por um segundo pensou em fugir, mas não era possível, ela logo percebeu. Tirou o lenço que cobria seu rosto devagar e colocou-o dentro da cesta que ainda estava em suas mãos.
Quando assim o fez, ficou perplexa com a diferente fluidez da respiração sem o lenço e lembrou-se também que podia falar e até cantar. Olhou para os lados e viu que muitas cobras haviam desaparecido.
Com um número menor de cobras, a menina se sentiu mais confiante para fugir, mas a verdade é que ela começou a se acostumar com aquele ambiente.
Sentindo-se em casa e com calor, a menina tirou o cobertor que a envolvia e o capuz que estava em sua cabeça. O último colocou na cesta e algo muito curioso aconteceu: todas as cobras desapareceram.
Só restara a menina, a cesta, tudo o que estava lá dentro, a coberta e o fogo. Ela ficou alguns minutos sem fazer nada e levantou-se.
Quando o fez, a cobra com quem se encontrara da primeira vez apareceu em sua frente e começou a circular seu corpo.
Com medo, a garota se abaixou e não encontrou o cobertor. Pegou de volta apenas o capuz e o lenço. Nesse movimento deixou cair o objeto que ela guardava dentro da cesta.
A serpente, ao ouvir o barulho, olhou para o objeto e nele se viu. Desapareceu no mesmo instante.
A menina respirou fundo, se levantou sem esforço e foi caminhando para fora. Quando passou ao lado do fogo deixou cair sobre ele o lenço e o capuz.
Saindo da caverna, a menina encontrou à frente a estrada. Fechou os olhos por um segundo, como quem procura algo bem no fundo de si e, em um impulso de seu coração, cantou uma canção, dançando com suavidade em seu percurso.
pollyanna
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outro conto de 2020
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Tudo começou com o sol radiante no céu azul sem nuvens. Uma brisa leve percorria uma casa vermelha pequena e aconchegante com um belo jardim na entrada.
Um menino de oito anos saía pela porta enquanto a mãe olhava em sua direção com semblante tranquilo, sentindo o sol tocar sua pele.
O menino sentia a brisa o envolver enquanto corria. Carregava consigo uma bola e toda alegria de viver.
Poucos metros adiante, o menino tropeçou numa pedra e não caiu, mas sua bola escorregou por suas mãos e saiu rolando até um gramado alto o suficiente para cobrir suas pernas até os joelhos. O menino ficou com um pouco de medo de entrar lá, mas o vento, que agora soprava mais forte, moveu a grama e ele viu com nitidez sua bola por alguns instantes, então se sentiu encorajado.
Foi caminhando até o gramado e quando pegou a bola, o chão sobre seus pés se abriu e o menino foi transportado para um lugar desconhecido. Parecia uma caverna um pouco escura, mas que de algum lugar ainda entrava luz, então dava pra ver tudo.
Lá ele encontrou muitos brinquedos que pareciam perdidos. Um peão de madeira lhe chamou atenção, mas ele não sabia o motivo. De todo modo, o guardou em seu bolso e foi andando vendo muitos outros objetos.
Estava achando aquilo tudo interessante, mas estava ficando tarde e ele começou a procurar uma maneira de ir embora. Pensou que seus pais deviam estar preocupados.
Procurou até se cansar e não encontrou nenhuma porta, nem janela, nem buraco do seu tamanho por onde pudesse sair. O menino começou a ficar triste e chorou.
lllpppUma lágrima caiu de seus olhos e ele percebeu que molhara uma pedra totalmente diferente das pedras que ele já tinha visto. Tomou-a em suas mãos e, quando olhou para o chão, viu que embaixo dela havia outro objeto que, como o peão, também chamara sua atenção. Com cuidado colocou-o no outro bolso.
Quando olhou para frente viu um poço de que não se lembrava ter visto antes. Num impulso e com um sorriso, jogou a pedra no poço e quando ela tocou o fundo o menino estava de volta, com suas pernas imersas na grama e a bola em suas mãos.
Não parecia ter passado tanto tempo como ele pensara, então resolveu ficar mais um pouco no jardim. O menino correu, pulou, deu cambalhotas e resolveu entrar em casa. Foi direto para o banho e sua mãe pegou suas roupas para lavar.
O almoço já estava pronto. Assim que o menino se arrumou, sentou-se à mesa e viu sua mãe chegar com lágrimas nos olhos, trazendo em suas mãos um anel com pedra azul. Aquele mesmo que o menino tinha colocado em seu bolso. No mesmo instante, seu pai, também com os olhos marejados, entrou pela porta segurando algo que parecia precioso.
Os dois o envolveram em um abraço apertado e o menino sorriu. Eles pareciam felizes como quem se vê inteiro depois de pensar que algo de si havia se perdido. O garoto olhou para as mãos de seu pai e viu o peão.
as crianças esperavam a chuva para dançar sentindo os pingos, o vento, a água que espirra quando pulam no chão molhado.
choveu.
dançaram.


mais um conto de 2020
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Em uma floresta bonita e com muitas árvores, grama e folhas verdes morava uma pequena raposa.
Ela estava caminhando pelos arredores quando avistou um gavião vindo em sua direção.
Ficou confusa, mas não teve medo. Deixou que a ave de aproximasse olhando-a fixamente. A ave pousou, se aproximou e foi embora.
A raposa não entendeu nada, mas continuou caminhando sem se preocupar com o que acontecera.
Mais adiante, seus olhos se cruzaram com um elefante, não muito grande, mas bem maior que ela.
Novamente ficou confusa, mas não teve medo. Apenas olhou fixamente para o animal.
O elefante chegou bem perto dela e foi embora.
Ela achou aquilo tudo muito estranho. Resolveu sentar-se um pouco sob uma árvore, onde tinha sombra e, olhando pra o chão, viu uma formiga vindo em sua direção. Aconteceu a mesma coisa que tinha acontecido com os outros bichos.
A raposa ficou intrigada e começou a pensar que havia algo errado com ela.
Voltou a caminhar e se deparou com um lago magnífico. Olhou para ele e viu uma criatura de quem pela primeira vez teve medo. Ela quis fugir, mas resolveu ficar ali observando a sensação que nunca antes experimentara.
Imediatamente o medo desapareceu e ela começou a olhar com cuidado para aquele ser que também resolvera ficar. Sentiu um profundo amor.
Naquele instante parecia surgir o gavião lá dentro do lago. Logo depois o elefante. Em seguida, a pequena formiga passou por suas patas e a raposa a acompanhou com os olhos. O pequeno bicho foi até a margem do lago e a raposa a viu tanto dentro quanto fora da água.
De súbito, olhou para seu lado direito e viu o gavião. Do lado esquerdo viu o elefante. Eles lhe faziam companhia. Olhou de novo para o lago e se viu, emocionada.
para amar por inteiro, precisamos nos permitir sentir tudo o que surge na relação.

mais um conto de 2020
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Duas caixas de madeira empilhadas estavam encostadas na parede. Alguns passos à frente delas havia um poço onde um homem coletava água com um balde também de madeira.
O homem levara uma bacia de alumínio e a colocou ao lado do poço. Aos poucos ele a ia enchendo com a água.
Quando terminou de encher, o homem pegou a bacia e foi caminhando até as caixas. Poucos metros acima delas se podia ver uma mulher esperando na janela. O homem a olhou quando chegou. Sorriu e, ao vê-la assentir com a cabeça, subiu nas caixas, levantou a bacia esticando seus braços e entregou-lhe.
Ela rapidamente dispôs o utensílio em cima de uma estante, embebedou um pano no líquido e foi ao encontro de uma mulher que estava deitada na cama com o rosto molhado de suor.
A mulher não parecia bem. Estava movendo seu corpo como quem sente desconforto em qualquer posição. A cuidadora, com o pano em mãos, o deslizou em sua testa com delicadeza e cuidado.
A mulher na cama estava com os olhos pequenos, quase fechados, como quem precisa prestar atenção em seu mundo interno. Mas assim que a outra passou o pano pela terceira vez, dando leves batidinhas, ela abriu seus olhos completamente, como se voltasse de uma viagem interna profunda e estivesse perplexa com tudo o que ocorrera lá.
Aos poucos foi se levantando, se vestindo e descendo as escadas - para a surpresa de todos que dela cuidavam. Ela parecia confiante, mas, ao chegar no meio da escada, tropeçou em seu próprio pé e caiu rolando por alguns degraus.
Todos escutaram o barulho e vieram correndo acudi-la. Ela se sentou em um dos degraus, com as mãos abraçando os joelhos, e chorou. Ficou por alguns minutos nesse estado, até que olhou para todos à sua volta e agradeceu.
A mulher que cuidava dela e o homem que pegara a água a ajudaram a se levantar com suavidade foram até a sala para que ela se sentasse em uma poltrona. Ela se sentou e pediu um chá.
Enquanto esperava, pegou um papel e uma caneta que estavam em cima da mesa ao lado e começou a escrever uma carta com os dizeres: "Estou cansada. Por toda minha vida precisei ser forte e, na verdade, nem me lembro mais o motivo. Ser forte, para mim, era estar sempre pronta para meus afazeres e não me deixar abater por emoções tolas ou doenças quaisquer. Ser forte era ser respeitada pelos outros, ainda que sentissem também um pouco de medo. Mas isso tudo parece ter ido longe demais. Não tenho forças para controlar sequer minhas pernas, que dirá outras pessoas com quem convivo. Eu desisto. Me entrego a essa tristeza que me procura há tempos, sem cessar. Com ela vou dormir e, quem sabe, não mais acordar."
Deixou os escritos sobre a mesa e em cima colocara a caneta que rolou e caiu no chão. Abandonou seu corpo, que amoleceu completamente, com a cabeça caindo por cima do braço da poltrona. Seus olhos abertos e tristes demonstravam que ela tinha sido absorvida pela emoção.
Ela dava lentas piscadas e em algum momento dormiu. Sonhou que estava em uma bela paisagem verde com um lago ao fundo e ao lado dela estava sua mãe, que morrera quando ela era ainda pequena. Ela se despiu completamente e entrou no rio, mergulhando em suas profundezas.
Lá de dentro ela podia ver com nitidez tudo o que acontecia na superfície e viu sua mãe feliz vendo-a desfrutar daquilo tudo. Ela levantava e mergulhava novamente, vendo tudo com cada vez mais clareza. Foi então que viu chegar uma criança muito parecida com ela. A menina se aproximou e deu as mãos para a mãe da mulher e as duas foram embora felizes e tranquilas.
Naquele momento, a cuidadora tropeçara na caneta no chão ao chegar com o chá e mulher despertou. Olhou para o chá e para sua fiel companheira e chorou. Abraçou-a, pegou a carta e saiu sem tomar o chá. Ela havia se curado.
presença para reparar as sutilezas


outro conto de 2020
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Aquela escada parecia interminável e a moça que a subia, por muitas vezes, precisou se apoiar na parede ao lado. Ela estava cansada e com seus joelhos doloridos mas, ainda assim, subia.
Em um desses momentos de descanso, a mulher olhou para o degrau em que estava e viu uma mancha preta com um formato circular. A moça passou seus dedos na mancha e viu que conseguira limpar a escada, mas ficou com seus dedos sujos.
Continuou seguindo e no próximo descanso viu mais alguma coisa no degrau onde estava. Era uma mancha branca. Fez o mesmo processo e seus dedos ficaram sujos novamente. Não mais pretos. Agora estavam brancos.
Começou a subir observando cada degrau e em todos eles encontrava algo em que tocar e sempre ficava com os dedos cheios daquilo em que encostava.
O caminho foi ficando menos cansativo e a subida não parecia mais tão difícil. Estava animada e tranquila e continuou seu percurso.
Até que chegou no último degrau e, antes que ela pudesse olhar para ele, viu que não havia nada à frente - apenas o vazio. Ela se desesperou e quis voltar, mas os degraus abaixo estavam embaçados, como se fossem desaparecer a qualquer momento.
Sem conseguir olhar para frente ou para trás, olhou para baixo e viu seus pés bem apoiados naquele degrau. Junto deles havia um embrulho. Ela o abriu e sorriu. Agora sabia que podia seguir. Se lembrou que tinha tudo de que precisava para entrar no vazio e ser atravessada pelo novo que surgiria. O que estava embrulhado era um lenço com uma borboleta bordada.
mais um conto de 2020
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No centro havia uma fogueira. Uma moça de cabelos curtos estava sentada fitando o fogo com um cobertor azul cobrindo suas costas. Lágrimas rolavam por seu rosto avermelhado. Ela estava fugindo e naquele momento resolvera parar e descansar.
Ficou chorando sem se mover até que se sentiu suficientemente aquecida e foi se deitar. Precisava estar disposta e alerta para continuar seu caminho. Entrou em sua barraca e logo adormeceu, tamanho seu cansaço.
Durante a madrugada ouviu sons lá fora repetidas vezes. As sombras mostravam que eram animais, então ela ficava tranquila e voltava a dormir.
Amanheceu e quando a moça saiu da barraca havia um banquete a esperando. Ela ficou muito confusa e desconfiada e olhou pelos arredores para ver se alguém estava à espreita ou se percebia que alguém tinha passado por ali. Não parecia ter nenhum vestígio humano, apenas de animais, e era o que ela realmente tinha percebido à noite.
Uma borboleta passou na ponta do seu nariz e depois rodeou a comida, como se a convidasse para o café. A mulher decidiu que comeria, depois daquela sutileza, daquele sinal tão bonito.
Ela comeu o suficiente e resolveu guardar o restante para mais tarde. Juntou suas coisas e saiu em direção ao seu novo lar. Enquanto caminhava, ela começou a ouvir alguns sons estranhos e ficou alerta.
De repente, saltou à sua frente um tigre muito grande. Ela nunca tinha se deparado com tamanha criatura. Ele começou a rodeá-la, mas ela não teve medo. Na verdade, se sentiu segura ao encontrá-lo.
O tigre se aproximou dela e, num salto, jogou no chão a mochila que ela carregava nas costas. Naquele momento, apareceu uma borboleta. Pousou no nariz da mulher e rodeou a mochila, como antes tinha feito.
A moça entendeu que o tigre queria aquela comida, então retirou-a da mochila e deixou no chão. Quando olhou, estava sozinha novamente.
Seguiu o seu caminho pisando em folhas secas e ouvindo o barulho que surgia. Ela se sentia cada vez mais confortável. Foi então que começou a ficar com fome. Procurou comida e, por sorte, havia uma macieira bem perto.
Ela pegou duas maçãs e comeu. Pensou sobre o que acontecera antes, olhou para as frutas suculentas e resolveu levar outras duas consigo.
Seguiu caminhando até que encontrou uma fogueira com uma barraca por perto. Já era noite, bem tarde, aliás. Ela viu que alguém deitava lá dentro, com um cobertor azul cobrindo seu corpo. A moça resolveu deixar em frente à barraca as duas maçãs.
Amanheceu, a mulher saiu da barraca e, de novo, tinha seu café da manhã servido. Ela comeu as duas maçãs muito agradecida. Encontrou, finalmente, seu lar.

quando alguém nasce
tudo muda
quando alguém morre
tudo muda
a composição da vida
o que se sente
o estado de coisas
nada fica intocado
nasce alguém feito onda que toca os pés
morre alguém feito onda que se recolhe de volta à imensidão do desconhecido
às vezes leva o que trouxe
às vezes deixa algo pra trás
mas vai
e nunca volta.
outras ondas vêm
podem até trazer as mesmas coisas,
mas nunca a mesma poderá voltar.
não basta amar alguém
é preciso abraçar suas incessantes mortes em vida
viver em abertura para suas transformações
o que não é possível sem amor
amor não pela pessoa em si
mas aquele que percorre tudo e todos
-amor
toda transformação diz respeito a tudo
cada movimento a tudo afeta
diante a morte dos afetos
feito feto prestes a (re)nascer
se vive o luto
feito mãe grávida de si
cada onda um convite
olhar para as memórias
tudo o que se viveu ou deixou de viver com o outro
e se estagnou, não se moveu
convite para deixar fluir
movimentar
sentir enfim o que não podia antes
prolongar a vida juntos
vivendo de novo, mas de forma inédita, a relação
mais um conto de 2020, em escrita livre.
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Sentada na areia da praia, ela observava o mar em silêncio, segurando suas pernas com os braços que se entrelaçavam. O nariz encostava nos joelhos e só se podia ver seus olhos. A menina estava só. À sua volta apenas uma imensidão de água, areia, vento e animais que não apareciam mas estavam lá. Destes últimos, os pássaros eram os únicos que não passavam despercebidos: os olhos da menina os acompanhavam todas as vezes que passavam por seu campo de visão.
Ela estava avistando o céu, quando um deles pousou ao seu lado. Era um pássaro branco e tão grande que quase alcançava os ombros da menina naquela posição. A menina sentiu sua presença e olhou rápido, assustada. Ele a olhou também e parecia enxergar tudo, toda a profundidade dela. A menina o observou com atenção. O susto passou. Era a primeira vez que seus olhos encontravam outros, completamente desconhecidos, por tanto tempo e com plena presença.
Depois desse encontro intenso de olhares, a menina estendeu sua mão para o pássaro. Era uma gaivota - nesse momento ela se dera conta. Ele abaixou a cabeça em direção à mão e entregou-lhe um objeto. Os dedos da menina se fecharam envolvendo o presente que ela logo depositara no bolso direito de sua calça. Ficou lá por pouco tempo. O objeto caíra na areia como se tivesse um grande buraco naquela parte da roupa. Ela o segurou novamente e colocou no bolso de sua camisa, que ficava do lado esquerdo do peito. Aconteceu a mesma coisa.
A menina, àquela altura, quis recusar o presente, já que não podia escolher quando e onde colocar, mas ela tinha vivido algo tão impactante que resolveu continuar segurando o objeto.
No mesmo instante a gaivota voou e a menina voltou a ficar sozinha. Olhou para a areia que tocava seus pés e percebeu os grãos: cada um em certo lugar, todos diferentes, e a composição perfeita para a sensação que lhe surgia.
De repente, um buraco se abriu embaixo de seus pés e a menina caiu em um lugar escuro, embora confortável como um abraço. Ela abriu suas mãos e percebeu que o objeto emitia uma luz, não muito forte, mas que ajudava enxergar o que estava à sua volta. Era areia.
A menina tentou se movimentar e cada vez que o fazia a areia se movia e chegava até seus pés, começando a cobri-los. Ficou com medo de ter seu corpo inteiro coberto pelos grãos, então não se moveu mais.
Suas mãos seguiam abertas e ela sentiu-se chamada a olhar para o objeto. Era um anel com uma pedra que se assemelhava aos olhos da gaivota. Ela não tinha reparado até aquele momento. Seu olhar, então, abriu a atenção para ver e ela foi novamente fisgada. Num completo estado de presença colocou no dedo o anel.
Ouviu o barulho das ondas e olhou para cima. A gaivota estava no topo do buraco que se abrira, esperando que a menina lhe estendesse a mão. A menina assim o fez e, quando se deu conta de tudo, estava sozinha, sentada na areia, com as mãos na água. Avistou o anel sendo levado e sorriu.
Foi embora da praia caminhando devagar e sentindo o encontro de seus pés com a areia.
I loved it. and I would love to read more about your movements :)
eu quero vir aqui escrever coisas novas, mas por enquanto eu deixo essas coisas antigas por aqui, até porque são sempre novas quando alguém lê.
escrevi isto em 2016 e estava falando da minha experiência andando pela rua - que mudou tanto, mas sinto que agora estou voltando a viver aos poquinhos algo parecido - e me lembra um pouco a experiência que vou estou tendo aqui também com vocês. inclusive a mudança na minha experiência de caminhadas lá fora teve inspiração de pessoas queridas daqui. :)
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tenho caminhado mais do que o meu costume, quase duas horas por dia. nos caminhos que crio sempre encontro pessoas. às vezes as mesmas, que, na verdade, mesmas nunca são, ainda que tenha passado apenas um segundo desde a última vez em que nos vimos, mas isso nem precisava dizer. nesses encontros eu vejo gente que nunca antes vira. gente com quem nunca falei e que me recebe com um sorriso daqueles em que mostramos os dentes e ficamos com os olhos pequenininhos. viramos conhecidos sem saber os nomes um do outro. e de tanto sorrirmos, dia após dia, num desses nos abraçamos. o moço vestido todo de branco com os cabelos da mesma cor me abraçou na segunda-feira. o moço de roupa listrada e cabelos pretos e brancos me abraçou na quinta, hoje. um perguntou de onde vim, o outro quis saber se estava triste. de cada um ganhei dois abraços. depois da despedida seguimos a vida: eles voltaram para seus trabalhos e eu voltei a caminhar, achando tudo muito engraçado, confesso,e bonito também.