Dissemos que se faz necessária, dentro de nós mesmos e em nossas relações, uma grande mudança. Porquanto, como entes humanos não podemos continuar vivendo como estamos vivendo: numa batalha contra nós mesmos.
A sociedade é vós e vós sois a sociedade. A estrutura da sociedade foi criada por cada ente humano, e nessa estrutura psicológica cada ente humano se vê aprisionado. E enquanto o ente humano não quebrar, dentro de si, completa e totalmente, essa estrutura psicológica, não será capaz de viver pacificamente, com intensa percepção da realidade.
Krishnamurti
pollyanna
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este é o décimo quinto terceiro conto escrito em 2020. São dezoito, mas um dos primeiros ainda não consegui compartilhar.
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Em uma estrada de terra com muitas árvores ao redor, caminhava uma menina de capuz na cabeça e lenço cobrindo o nariz e a boca. Os dois acessórios tinham cor vermelha bem viva.
A menina andava saltitante de um lado para o outro da estrada, movimentando de maneira tão despreocupada a cesta que carregava em suas mãos que não parecia levar nada muito pesado ou frágil.
Percorreu um trecho curto do seu caminho e cruzou com uma cobra grande, de espessura maior que a de seu braço. A menina parou imediatamente e ficou observando o bicho atravessar de um lado para o outro fazendo um movimento que parece o contorno da letra "s".
Quando a serpente estava chegando do outro lado, a menina suspirou aliviada e o animal, de súbito, olhou em sua direção. A menina deu dois passos para frente, estufando o peito, e olhou nos olhos do bicho que ainda estava longe. Ficaram alguns segundos assim. A cobra adentrou a mata e a menina seguiu seu caminho.
Embora a garota estivesse atenta, quando chegou perto de onde a serpente passou, sentiu uma picada e desmaiou.
Quando acordou, estava dentro de uma caverna com uma fogueira, enrolada em um cobertor. Ao seu redor muitas cobras iam de um lado para o outro. A menina tinha a impressão de estar sendo vigiada por todos os cantos.
Por um segundo pensou em fugir, mas não era possível, ela logo percebeu. Tirou o lenço que cobria seu rosto devagar e colocou-o dentro da cesta que ainda estava em suas mãos.
Quando assim o fez, ficou perplexa com a diferente fluidez da respiração sem o lenço e lembrou-se também que podia falar e até cantar. Olhou para os lados e viu que muitas cobras haviam desaparecido.
Com um número menor de cobras, a menina se sentiu mais confiante para fugir, mas a verdade é que ela começou a se acostumar com aquele ambiente.
Sentindo-se em casa e com calor, a menina tirou o cobertor que a envolvia e o capuz que estava em sua cabeça. O último colocou na cesta e algo muito curioso aconteceu: todas as cobras desapareceram.
Só restara a menina, a cesta, tudo o que estava lá dentro, a coberta e o fogo. Ela ficou alguns minutos sem fazer nada e levantou-se.
Quando o fez, a cobra com quem se encontrara da primeira vez apareceu em sua frente e começou a circular seu corpo.
Com medo, a garota se abaixou e não encontrou o cobertor. Pegou de volta apenas o capuz e o lenço. Nesse movimento deixou cair o objeto que ela guardava dentro da cesta.
A serpente, ao ouvir o barulho, olhou para o objeto e nele se viu. Desapareceu no mesmo instante.
A menina respirou fundo, se levantou sem esforço e foi caminhando para fora. Quando passou ao lado do fogo deixou cair sobre ele o lenço e o capuz.
Saindo da caverna, a menina encontrou à frente a estrada. Fechou os olhos por um segundo, como quem procura algo bem no fundo de si e, em um impulso de seu coração, cantou uma canção, dançando com suavidade em seu percurso.
outro conto de 2020
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Tudo começou com o sol radiante no céu azul sem nuvens. Uma brisa leve percorria uma casa vermelha pequena e aconchegante com um belo jardim na entrada.
Um menino de oito anos saía pela porta enquanto a mãe olhava em sua direção com semblante tranquilo, sentindo o sol tocar sua pele.
O menino sentia a brisa o envolver enquanto corria. Carregava consigo uma bola e toda alegria de viver.
Poucos metros adiante, o menino tropeçou numa pedra e não caiu, mas sua bola escorregou por suas mãos e saiu rolando até um gramado alto o suficiente para cobrir suas pernas até os joelhos. O menino ficou com um pouco de medo de entrar lá, mas o vento, que agora soprava mais forte, moveu a grama e ele viu com nitidez sua bola por alguns instantes, então se sentiu encorajado.
Foi caminhando até o gramado e quando pegou a bola, o chão sobre seus pés se abriu e o menino foi transportado para um lugar desconhecido. Parecia uma caverna um pouco escura, mas que de algum lugar ainda entrava luz, então dava pra ver tudo.
Lá ele encontrou muitos brinquedos que pareciam perdidos. Um peão de madeira lhe chamou atenção, mas ele não sabia o motivo. De todo modo, o guardou em seu bolso e foi andando vendo muitos outros objetos.
Estava achando aquilo tudo interessante, mas estava ficando tarde e ele começou a procurar uma maneira de ir embora. Pensou que seus pais deviam estar preocupados.
Procurou até se cansar e não encontrou nenhuma porta, nem janela, nem buraco do seu tamanho por onde pudesse sair. O menino começou a ficar triste e chorou.
lllpppUma lágrima caiu de seus olhos e ele percebeu que molhara uma pedra totalmente diferente das pedras que ele já tinha visto. Tomou-a em suas mãos e, quando olhou para o chão, viu que embaixo dela havia outro objeto que, como o peão, também chamara sua atenção. Com cuidado colocou-o no outro bolso.
Quando olhou para frente viu um poço de que não se lembrava ter visto antes. Num impulso e com um sorriso, jogou a pedra no poço e quando ela tocou o fundo o menino estava de volta, com suas pernas imersas na grama e a bola em suas mãos.
Não parecia ter passado tanto tempo como ele pensara, então resolveu ficar mais um pouco no jardim. O menino correu, pulou, deu cambalhotas e resolveu entrar em casa. Foi direto para o banho e sua mãe pegou suas roupas para lavar.
O almoço já estava pronto. Assim que o menino se arrumou, sentou-se à mesa e viu sua mãe chegar com lágrimas nos olhos, trazendo em suas mãos um anel com pedra azul. Aquele mesmo que o menino tinha colocado em seu bolso. No mesmo instante, seu pai, também com os olhos marejados, entrou pela porta segurando algo que parecia precioso.
Os dois o envolveram em um abraço apertado e o menino sorriu. Eles pareciam felizes como quem se vê inteiro depois de pensar que algo de si havia se perdido. O garoto olhou para as mãos de seu pai e viu o peão.
as crianças esperavam a chuva para dançar sentindo os pingos, o vento, a água que espirra quando pulam no chão molhado.
choveu.
dançaram.


mais um conto de 2020
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Em uma floresta bonita e com muitas árvores, grama e folhas verdes morava uma pequena raposa.
Ela estava caminhando pelos arredores quando avistou um gavião vindo em sua direção.
Ficou confusa, mas não teve medo. Deixou que a ave de aproximasse olhando-a fixamente. A ave pousou, se aproximou e foi embora.
A raposa não entendeu nada, mas continuou caminhando sem se preocupar com o que acontecera.
Mais adiante, seus olhos se cruzaram com um elefante, não muito grande, mas bem maior que ela.
Novamente ficou confusa, mas não teve medo. Apenas olhou fixamente para o animal.
O elefante chegou bem perto dela e foi embora.
Ela achou aquilo tudo muito estranho. Resolveu sentar-se um pouco sob uma árvore, onde tinha sombra e, olhando pra o chão, viu uma formiga vindo em sua direção. Aconteceu a mesma coisa que tinha acontecido com os outros bichos.
A raposa ficou intrigada e começou a pensar que havia algo errado com ela.
Voltou a caminhar e se deparou com um lago magnífico. Olhou para ele e viu uma criatura de quem pela primeira vez teve medo. Ela quis fugir, mas resolveu ficar ali observando a sensação que nunca antes experimentara.
Imediatamente o medo desapareceu e ela começou a olhar com cuidado para aquele ser que também resolvera ficar. Sentiu um profundo amor.
Naquele instante parecia surgir o gavião lá dentro do lago. Logo depois o elefante. Em seguida, a pequena formiga passou por suas patas e a raposa a acompanhou com os olhos. O pequeno bicho foi até a margem do lago e a raposa a viu tanto dentro quanto fora da água.
De súbito, olhou para seu lado direito e viu o gavião. Do lado esquerdo viu o elefante. Eles lhe faziam companhia. Olhou de novo para o lago e se viu, emocionada.
para amar por inteiro, precisamos nos permitir sentir tudo o que surge na relação.

mais um conto de 2020
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Duas caixas de madeira empilhadas estavam encostadas na parede. Alguns passos à frente delas havia um poço onde um homem coletava água com um balde também de madeira.
O homem levara uma bacia de alumínio e a colocou ao lado do poço. Aos poucos ele a ia enchendo com a água.
Quando terminou de encher, o homem pegou a bacia e foi caminhando até as caixas. Poucos metros acima delas se podia ver uma mulher esperando na janela. O homem a olhou quando chegou. Sorriu e, ao vê-la assentir com a cabeça, subiu nas caixas, levantou a bacia esticando seus braços e entregou-lhe.
Ela rapidamente dispôs o utensílio em cima de uma estante, embebedou um pano no líquido e foi ao encontro de uma mulher que estava deitada na cama com o rosto molhado de suor.
A mulher não parecia bem. Estava movendo seu corpo como quem sente desconforto em qualquer posição. A cuidadora, com o pano em mãos, o deslizou em sua testa com delicadeza e cuidado.
A mulher na cama estava com os olhos pequenos, quase fechados, como quem precisa prestar atenção em seu mundo interno. Mas assim que a outra passou o pano pela terceira vez, dando leves batidinhas, ela abriu seus olhos completamente, como se voltasse de uma viagem interna profunda e estivesse perplexa com tudo o que ocorrera lá.
Aos poucos foi se levantando, se vestindo e descendo as escadas - para a surpresa de todos que dela cuidavam. Ela parecia confiante, mas, ao chegar no meio da escada, tropeçou em seu próprio pé e caiu rolando por alguns degraus.
Todos escutaram o barulho e vieram correndo acudi-la. Ela se sentou em um dos degraus, com as mãos abraçando os joelhos, e chorou. Ficou por alguns minutos nesse estado, até que olhou para todos à sua volta e agradeceu.
A mulher que cuidava dela e o homem que pegara a água a ajudaram a se levantar com suavidade foram até a sala para que ela se sentasse em uma poltrona. Ela se sentou e pediu um chá.
Enquanto esperava, pegou um papel e uma caneta que estavam em cima da mesa ao lado e começou a escrever uma carta com os dizeres: "Estou cansada. Por toda minha vida precisei ser forte e, na verdade, nem me lembro mais o motivo. Ser forte, para mim, era estar sempre pronta para meus afazeres e não me deixar abater por emoções tolas ou doenças quaisquer. Ser forte era ser respeitada pelos outros, ainda que sentissem também um pouco de medo. Mas isso tudo parece ter ido longe demais. Não tenho forças para controlar sequer minhas pernas, que dirá outras pessoas com quem convivo. Eu desisto. Me entrego a essa tristeza que me procura há tempos, sem cessar. Com ela vou dormir e, quem sabe, não mais acordar."
Deixou os escritos sobre a mesa e em cima colocara a caneta que rolou e caiu no chão. Abandonou seu corpo, que amoleceu completamente, com a cabeça caindo por cima do braço da poltrona. Seus olhos abertos e tristes demonstravam que ela tinha sido absorvida pela emoção.
Ela dava lentas piscadas e em algum momento dormiu. Sonhou que estava em uma bela paisagem verde com um lago ao fundo e ao lado dela estava sua mãe, que morrera quando ela era ainda pequena. Ela se despiu completamente e entrou no rio, mergulhando em suas profundezas.
Lá de dentro ela podia ver com nitidez tudo o que acontecia na superfície e viu sua mãe feliz vendo-a desfrutar daquilo tudo. Ela levantava e mergulhava novamente, vendo tudo com cada vez mais clareza. Foi então que viu chegar uma criança muito parecida com ela. A menina se aproximou e deu as mãos para a mãe da mulher e as duas foram embora felizes e tranquilas.
Naquele momento, a cuidadora tropeçara na caneta no chão ao chegar com o chá e mulher despertou. Olhou para o chá e para sua fiel companheira e chorou. Abraçou-a, pegou a carta e saiu sem tomar o chá. Ela havia se curado.