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pollyanna 1 year ago
nesse último mês eu quis tanto sonhar com minha mãe. já que a presença física dela não era mais possível, eu queria sonhar, porque lembrar, pensar e imaginar eu fazia todos os dias. os sonhos não me parecem mais do que o inconsciente trazendo à luz algo que está pronto para ser visto - embora pensando na interconexão de tudo eu me permita abraçar o mistério da possibilidade de também ter mais significados. mas o que me importa é que eu sonhei com ela. estávamos conversando bem pertinho, olhando nos olhos uma da outra. até que eu coloquei minhas duas mãos em volta do rosto dela, me aproximando mais, e falei: -eu te amo, com a voz arrastada de quem está emitindo sons na vida real também. percebi que eu estava acordando e encostei minha testa na dela, meus olhos estavam bem perto dos olhos dela, do jeito que não dá mais pra ver com nitidez, e ela foi se integrando a mim e desaparecendo. acordei. eu senti como um presente. um presente que eu sempre tive, mas que me abriu espaço pra reconhecer.
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pollyanna 1 year ago
estamos todos tendo vislumbres do porvir e tentando fazer algo que alcance o inimaginável, mas nossa visão é turva, limitada e imatura. tentamos realizar o impossível a partir do conhecido. não abrimos espaço de dúvida, não abraçamos o mistério, não ficamos no escuro. enquanto continuarmos tentando encaixar o futuro naquilo que conhecemos, só reproduziremos mais do mesmo. a boa notícia é que a vida é muito mais do que nós, e ela inclui o mistério, o escuro, o que não sabemos e atua com uma força imparável. e às vezes abrimos espaço para que ela nos guie.
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pollyanna 1 year ago
é estranho querer compartilhar algo tão íntimo, mas, ao mesmo tempo, tão humano, como a morte da minha mãe, que aconteceu há 18 dias, mas eu quero, então é isso. eu tenho ensaiado vir aqui, mas não me parece adequado nunca. fico tentando antecipar as respostas ou o nada. fico tentando descobrir a coisa certa a dizer para que não vire só algo sobre mim e a minha vida tão simples que tem espaço inclusive pra morte. eu escrevi coisas bonitas em outros dias. eu chorei em todos eles. eu choro agora enquanto escrevo porque eu sinto tanto. e sorrio também porque eu sinto tanto. tudo.
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pollyanna 1 year ago
hoje eu caminhei na chuva. também sorri ao ver meus filhos correndo e dançando na chuva. agora, quentinha embaixo da coberta, eu agradeço por poder ter vivido isso, e desejo boa noite e bom dia a vocês.
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pollyanna 1 year ago
mais um conto de 2020. eu achava que eram 18, mas foram 21. esse é o décimo sétimo -- A janela parecia a única coisa a ser vista no ônibus em movimento. Mas através dela se podia ver a paisagem que se esvaia em poucos segundos, deixando a impressão de que as coisas aparecem e reaparecem o tempo todo. E não eram só as paisagens que o menino podia ver à sua frente. Seus pensamentos lhe traziam outras imagens de tudo o que já tinha vivido ao percorrer aquele caminho tantas vezes. Pela primeira vez ele estava sozinho. Não havia mais ninguém no ônibus, com exceção do motorista que não parecia querer estar ali, com sua camisa abotoada de um jeito que deixava o lado direito mais curto. O menino abriu um livro em uma página aleatória porque já o conhecia de cor e queria criar uma nova história. Quando olhou, no meio da página apareceu a figura de um girassol. Aquela imagem nunca estivera ali, ele tinha certeza. Tocou a figura para ver se alguém a tinha colocado e sentiu uma textura inesperada. Em seus dedos ficaram resquícios daquilo que tocara. Um pó. Ele se perguntou se poderia ser pólen. Não importava muito. Olhou para a ponta de seu dedo indicador e viu um grão com muita nitidez. Talvez nunca tivesse visto algo com tanta clareza. No mesmo instante o menino foi sugado para dentro do grão que caiu novamente dentro do livro. O menino estava preso em sua história favorita, entre palavras, páginas e um girassol que misteriosamente surgira. Ele tentava percorrer aquelas páginas com a esperança de conseguir sair - em vão. Chegou pela décima vez na página do girassol e lá resolveu se recostar. Deitou bem em cima da flor e foi como se alguém o embalasse. Entrou em um sono profundo. Despertou de súbito quando sua cabeça bateu na janela de vidro e se assustou. O ônibus acabara de fazer sua última parada. Ele precisava descer. Procurou o livro, mas não o encontrou em parte alguma. Perguntou ao motorista, que lhe pareceu tão perdido que nem importava a resposta. O menino deu uma última olhada e desceu. Sentou-se no chão da calçada para procurar em sua bolsa. O livro desaparecera. Era como se o ar não pudesse completar todo o percurso em seu corpo. Algo lhe parecia faltar e era importante. Sentiu aquilo tudo com intensidade, até que viu, do outro lado da rua, um girassol. Se lembrou de tudo o que ocorrera naquele dia e sentiu um alívio como se estivesse novamente inteiro. Ele sabia: o livro tornou-se desnecessário. Já estava integrado em si.
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pollyanna 1 year ago
mais um conto de 2020 --- Uma pedra em um morro gramado do lado direito da estrada lhe chamara atenção. A mulher com um vestido longo e cheio de babados na ponta tirou seus sapatos, colocou os pés na grama e subiu o morro até se recostar na pedra. Ela deixou os sapatos marrons dispostos ao seu lado e ficou observando a estrada e um monte do outro lado. Lá ela avistou uma árvore com o tronco fino e galhos com poucas folhas nas pontas. Seu olhar parou um pouco para contemplar aquela vista. O vento soprava forte e a árvore se movia como se dançasse com seus muitos braços magros. A mulher sentiu a dança e começou a mover seus braços também, não tão magros, mas também quase desnudos. Até que ela viu alguém na estrada. Ficou quieta porque não queria ser vista. A pessoa lá na estrada foi se aproximando do ponto em que ela parou antes de subir e, ela percebeu, é um homem. Ele não a viu, na verdade nem olhou para o lado direito da estrada, apenas avistou o lado esquerdo. Ele tirou seus sapatos, subiu o morro e se recostou na árvore fina, mas firme, e colocou seu calçado preto ao seu lado. A mulher continuou olhando para ele imóvel, até que ele levantou a cabeça e a viu. Sem premeditar, ele fitou diretamente seus olhos verdes do outro lado da estrada. Ela queria, mas não conseguiu desviar o olhar. Os dois se olharam por alguns minutos até que um deles se moveu. Não se sabe qual porque em poucos segundos o outro se movimentou também. A mulher se levantou com delicadeza e elegância. O homem também. Eles carregaram seus sapatos em suas mãos e não os colocaram nos pés quando tocaram de novo a estrada. A lua nova começava a apontar no céu. Os dois foram se aproximando do centro da estrada. Quando se encontraram, o vento soprou forte lhes convidando para uma dança. Eles dançaram até que a lua parecia estar bem acima deles. Nesse momento os dois se olharam novamente e sorriram. A mulher com os sapatos pretos seguiu para uma direção da estrada e o homem com os sapatos marrons foi para a outra.
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pollyanna 1 year ago
o que estamos fazendo agora sempre parece simples demais para o que nos espera a seguir. varrer o chão empoeirado da casa parece só algo que se faz para se ter um lugar limpo, e tudo o que vem depois é que é importante. varrer o chão, apenas, não pode nunca ser o mais importante. o mais importante nos aguarda depois ou nos pensamentos que nos ocorrem enquanto varremos o chão. varrer o chão com o corpo inteiro só pode ser desperdício de um corpo tão cheio de outras possibilidades. varrer um chão, não como quem pinta um quadro, não como quem escreve um livro inspirador, não como quem faz qualquer coisa que não seja varrer o chão. varrer o chão, apenas. quem terá essa ousadia?
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pollyanna 1 year ago
mais um conto de 2020. :) -- Um coelho branco caminhava devagar por uma trilha no meio da floresta. Parecia despreocupado. Depois de andar um pouco, olhou para seu lado esquerdo e viu muitas frutinhas vermelhas em um arbusto que pareciam convidá-lo para que as colhesse. O coelho hesitou por poucos segundos, mas pegou algumas frutas e as colocou em um bolso que acabara de improvisar com seus próprios pêlos. Mais adiante, o coelho viu um arbusto em seu lado direito, cheio de frutinhas amarelas. Elas também pareciam chamá-lo, como se estivessem prontas para uma nova vida em outros corpos. O coelho as pegou com delicadeza, uma a uma, até que percebeu ter coletado o suficiente para caber em seu outro bolso feito naquele instante em seu próprio pêlo. O coelho seguiu caminhando mais um pouco e adentrou a mata. Poucos metros à frente se encontrou com um pássaro que estava no chão e parecia faminto. O coelho logo se lembrou das frutinhas e deu-lhe três das vermelhas. O passarinho as pegou e, de súbito, voou. Ele continuou trilhando seu caminho quando um ratinho parou em sua frente. Ele estava com os pêlos arrepiados, bem magro e seus olhos de pedinte fizeram com que o coelho imediatamente pegasse o restante das frutinhas vermelhas para lhe entregar. No mesmo instante, o passarinho com quem acabara de se encontrar sobrevoou os dois. O rato quis se esconder, como se os dois já tivessem se visto antes e tivessem se estranhado. Mas o pássaro não fez nada com ele naquela hora, apenas voou e pousou em uma árvore lá perto. O coelho olhou para um e para o outro e viu que estavam ambos tranquilos. O rato acabara de comer as frutinhas e não havia mais resquícios do que quer que tenha se passado entre os dois. O coelho seguiu feliz e uma borboleta com a asa machucada pousou em seu nariz. Ele olhou dentro de seus olhos e, de repente, não era mais coelho. Agora tinha asas, era pequeno e colorido, e uma beleza sem fim. Transformou-se em borboleta. O coelho sentiu-se aprisionado, estranho, entristeceu-se. Mas logo lá do alto ele avistou o ratinho novamente, parecendo estar caçando algo no chão. De repente, viu o pássaro lhe dando bicadas e quis interferir. Mas ele era apenas uma borboleta, pensou, ninguém o ouviria. Foi então que viu um pequeno pássaro no chão e percebeu que era ele que os dois bichos estavam procurando. O coelho-borboleta pousou em cima do pequeno pássaro e ficou com as asas abertas para protegê-lo. O rato, que estava correndo, deu uma patada em sua asa e a machucou. O coelho-borboleta procurou, mas o pássaro maior tinha sumido. Antes que o ratinho fizesse qualquer outro movimento, os três ouviram um animal se aproximar. O rato correu para ver o que era. O animal era o coelho. Ele se aproximou do ratinho e logo lhe entregou as frutinhas. Pouco antes do encontro entre o rato e o coelho, o passarinho se aproximou, carregou seu filhote e passou por cima do ratinho e do coelho. O coelho-borboleta, sem entender nada, seguiu o coelho e pousou em seu nariz. Imediatamente o coelho voltou a si. Tendo vivido aquele estranho momento, olhou de novo para a borboleta e suas asas estavam perfeitas novamente. Ele não sabia o que fazer, apenas sentiu gratidão. Decidiu seguir. Adentrou sua toca e lá estavam seus filhos, sua companheira, o rato, o pássaro e a borboleta. Os três tinham levado comida conforme suas possibilidades. Ele juntou as frutinhas amarelas e todos comeram em celebração.
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pollyanna 1 year ago
Dissemos que se faz necessária, dentro de nós mesmos e em nossas relações, uma grande mudança. Porquanto, como entes humanos não podemos continuar vivendo como estamos vivendo: numa batalha contra nós mesmos. A sociedade é vós e vós sois a sociedade. A estrutura da sociedade foi criada por cada ente humano, e nessa estrutura psicológica cada ente humano se vê aprisionado. E enquanto o ente humano não quebrar, dentro de si, completa e totalmente, essa estrutura psicológica, não será capaz de viver pacificamente, com intensa percepção da realidade. Krishnamurti
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pollyanna 1 year ago
este é o décimo quinto terceiro conto escrito em 2020. São dezoito, mas um dos primeiros ainda não consegui compartilhar. -- Em uma estrada de terra com muitas árvores ao redor, caminhava uma menina de capuz na cabeça e lenço cobrindo o nariz e a boca. Os dois acessórios tinham cor vermelha bem viva. A menina andava saltitante de um lado para o outro da estrada, movimentando de maneira tão despreocupada a cesta que carregava em suas mãos que não parecia levar nada muito pesado ou frágil. Percorreu um trecho curto do seu caminho e cruzou com uma cobra grande, de espessura maior que a de seu braço. A menina parou imediatamente e ficou observando o bicho atravessar de um lado para o outro fazendo um movimento que parece o contorno da letra "s". Quando a serpente estava chegando do outro lado, a menina suspirou aliviada e o animal, de súbito, olhou em sua direção. A menina deu dois passos para frente, estufando o peito, e olhou nos olhos do bicho que ainda estava longe. Ficaram alguns segundos assim. A cobra adentrou a mata e a menina seguiu seu caminho. Embora a garota estivesse atenta, quando chegou perto de onde a serpente passou, sentiu uma picada e desmaiou. Quando acordou, estava dentro de uma caverna com uma fogueira, enrolada em um cobertor. Ao seu redor muitas cobras iam de um lado para o outro. A menina tinha a impressão de estar sendo vigiada por todos os cantos. Por um segundo pensou em fugir, mas não era possível, ela logo percebeu. Tirou o lenço que cobria seu rosto devagar e colocou-o dentro da cesta que ainda estava em suas mãos. Quando assim o fez, ficou perplexa com a diferente fluidez da respiração sem o lenço e lembrou-se também que podia falar e até cantar. Olhou para os lados e viu que muitas cobras haviam desaparecido. Com um número menor de cobras, a menina se sentiu mais confiante para fugir, mas a verdade é que ela começou a se acostumar com aquele ambiente. Sentindo-se em casa e com calor, a menina tirou o cobertor que a envolvia e o capuz que estava em sua cabeça. O último colocou na cesta e algo muito curioso aconteceu: todas as cobras desapareceram. Só restara a menina, a cesta, tudo o que estava lá dentro, a coberta e o fogo. Ela ficou alguns minutos sem fazer nada e levantou-se. Quando o fez, a cobra com quem se encontrara da primeira vez apareceu em sua frente e começou a circular seu corpo. Com medo, a garota se abaixou e não encontrou o cobertor. Pegou de volta apenas o capuz e o lenço. Nesse movimento deixou cair o objeto que ela guardava dentro da cesta. A serpente, ao ouvir o barulho, olhou para o objeto e nele se viu. Desapareceu no mesmo instante. A menina respirou fundo, se levantou sem esforço e foi caminhando para fora. Quando passou ao lado do fogo deixou cair sobre ele o lenço e o capuz. Saindo da caverna, a menina encontrou à frente a estrada. Fechou os olhos por um segundo, como quem procura algo bem no fundo de si e, em um impulso de seu coração, cantou uma canção, dançando com suavidade em seu percurso.