outro dia eu fui fechar o portão de casa e vi, no meio do mato, essas pequenas flores. me espantei com elas e me lembrei que estou viva e senti amor que ficou mesmo com as partidas.
quando eu vivo algo que me coloca em contato radical com a vida, meus sentidos ficam mais abertos.
pollyanna
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outro dia eu fui fechar o portão de casa e vi, no meio do mato, essas pequenas flores. me espantei com elas e me lembrei que estou viva e senti amor que ficou mesmo com as partidas.
quando eu vivo algo que me coloca em contato radical com a vida, meus sentidos ficam mais abertos.
é bonito demais ver as pessoas encarando, assumindo e deixando ir as ilusões em que elas acreditavam com tanta força.
nós tentamos fugir da sensação de solidão e de desamparo de várias maneiras: tentando conquistar as pessoas com beleza, risadas, dinheiros, com nossas criações, cuidando dessas pessoas. mas a verdade é que cada vez que fazemos esses movimentos tentando fugir, criamos mais solidão e desamparo.
nunca estamos satisfeitos, nunca temos o suficiente, porque estamos partindo de uma sensação de falta e não da nossa natureza autêntica e entregue aos encontros.
ficamos ansiosos por oferecer alguma coisa para o outro, para o mundo, e nos forçamos a fazer algo com uma frequência adoecedora que provavelmente surgiria naturalmente em um processo de criação sem pressa e cheio de movimento.
se você está sentindo ansiedade agora, querendo se conectar, servir, oferecer algo para alguém, se dê um tempo para sentir sua conexão com essa pessoa, ou pessoas, mesmo que você não saiba bem quem são.
talvez apareçam emoções e pensamentos que você não estava percebendo (vão me achar ridícula se eu for eu mesma, vão me ignorar, não vão gostar de mim). e você se deixa sentir tudo, ao mesmo tempo em que percebe a conexão e o laço incondicional entre vocês.
vivendo radicalmente essa prática, algo se desloca em nós, pelo menos no momento em que a experimentamos, e podemos oferecer algo partindo da nossa potência e não do medo da solidão.
a autenticidade começa pela abertura para sentirmos tudo o que chega. e quando nos permitimos sentir, algo amadurece e nos convida a criação, à entrega.
quando arriscamos entregar algo a partir desse lugar, nos abrimos para a transformação.
lá fora vejo o mundo exuberante, gigante. parece que o espaço que me cabe é pequeno demais pra tanta riqueza. mas a verdade é que, embora seja pequeno o espaço que eu ocupo, e que tudo o que eu faça seja miúdo, o convite é pra confiar nesse espaço, do tamanho exato que tem, e ver beleza, sabedoria nessa existência que é simples, mas compõe a vida com tudo o que há.



meu pai estaria completando 58 anos hoje. ele morreu aos 39 - eu ainda me espanto com isso.
eu sei que quando vivemos juntos eu fui a filha que pude, mas estava sempre tentando consertá-lo de algum jeito. queria ter aprendido a parar de tentar consertar os escritos, as coisas, a vida, as pessoas, a mim mesma, mas aceito e acolho esse impulso que toda hora aparece.
nesse momento de aceitação, encontro a clareza de que eu posso soltar tudo isso e me encontrar com a fluidez da vida que aparece a cada instante de presença. e, nesse instante, abraçar meu pai e quem ele foi sob o meu olhar e abraçar o mistério que também o compunha.
eu posso abraçar o inteiro da vida que segue me espantando com as mortes, mesmo sendo a única certeza que temos - nunca sabemos quando, então tudo bem o espanto também.
eu confesso que dá um pouco de vontade de parecer uma vítima da vida, mas eu sei que pra chorar e sentir de verdade eu preciso estar longe desse papel, então eu deixo ele pra lá. e fico aqui. me despedindo das pollyannas que eu era ou imaginava que seria com cada um que fez sua travessia - e talvez nesse momento eu precise ter coragem de encarar minha inteireza - não auto-suficiência, nada disso. vai ficando cada vez menos espaço para fugir de mim. e eu vou encarando a vida, o meu olhar, tudo o que eu sinto. e eu começo a ser radicalmente eu. a cada instante um convite.
escrever sobre o que já passou tem sido difícil porque todos os dias encontro tanto a dizer, mas não surge força para vir aqui. é que a vida nos últimos meses mudou tanto, doeu tanto e trouxe tão nítido o amor.
escrever sobre agora é sempre escrever sobre escrever e talvez eu esteja meio cansada disso. mas é sempre onde eu encontro uma fresta pra dizer alguma coisa. pra falar que o amor segue inteiro, pleno e que eu vou ter coragem de ser inteira também. na verdade inteira já sou, mas eu me iludo fingindo que deixo qualquer coisa minha pra trás.
eu pensei "vou encontrar minha voz pra vim dizer belezas aqui ou só trazer vida mesmo com tudo o que ela entrega ou eu percebo", mas vejo que posso só descansar na minha voz, do jeito que ela surge, mesmo duvidando da potência dela, que sempre me acompanha e flui e encontra o que precisa.


nesse último mês eu quis tanto sonhar com minha mãe. já que a presença física dela não era mais possível, eu queria sonhar, porque lembrar, pensar e imaginar eu fazia todos os dias.
os sonhos não me parecem mais do que o inconsciente trazendo à luz algo que está pronto para ser visto - embora pensando na interconexão de tudo eu me permita abraçar o mistério da possibilidade de também ter mais significados.
mas o que me importa é que eu sonhei com ela. estávamos conversando bem pertinho, olhando nos olhos uma da outra. até que eu coloquei minhas duas mãos em volta do rosto dela, me aproximando mais, e falei: -eu te amo, com a voz arrastada de quem está emitindo sons na vida real também. percebi que eu estava acordando e encostei minha testa na dela, meus olhos estavam bem perto dos olhos dela, do jeito que não dá mais pra ver com nitidez, e ela foi se integrando a mim e desaparecendo. acordei.
eu senti como um presente. um presente que eu sempre tive, mas que me abriu espaço pra reconhecer.