um dos meus filmes preferidos da infância foi Harriet, a espiã. com ele eu percebi o que eu gostava de fazer, que era observar as pessoas e pensar e escrever sobre minhas observações. depois que vi esse filme quis ser escritora.
me lembro de me doerem os dramas do filme, de ser desconfortável ver, mas eu sentia que tinha uma beleza em ver e descobrir a verdade.
um dia desses foi meu aniversário. eu acordei pensando na minha mãe. me lembrei do meu último aniversário: ela parou na porta do quarto onde eu dormia na casa dela e chamou meus filhos dizendo que era meu aniversário, pra eles me darem os parabéns. acho que eles não foram. mas ela, que era quase sempre muito séria, se jogou no colchão onde eu estava deitada e me deu um abraço toda feliz. talvez tenha cantado pra mim. eu não me lembro dos detalhes todos e sinto um pesar por isso, mas eu sei bem o que eu senti. foi um espanto imensamente feliz. foi amor.
este ano eu não pude vê-la ou ouvi-la. não com os ouvidos e olhos do corpo.
eu acordei e fui fazer uma prática de meditação online com uns amigos. eles cantaram parabéns pra mim, me esperaram enquanto eu acolhia meu filho que chorava, depois começamos. ou o começo sempre é bem antes, mas não importa. normalmente, quando finalizamos a prática, conversamos um pouco, mas naquele dia não. a prática acabou e ficamos em silêncio na presença um do outro.
e foi ao sustentar o silêncio que eu senti. senti a presença da minha mãe comigo, e do meu pai, e do meu sobrinho e de todos os seres amados que não estão mais aqui. e eu chorei, assim como eu choro agora. tem dor nesse choro, mas tem também amor - e é nele que encontro todos eles.
ventando
as folhas se mexem sem medo de se soltar do galho
não tentam se agarrar
nem se desprender
quando se soltam seguem entregues ao vento
sem ninguém precisar testemunhar
mas também às vezes alguém a vê no instante do vôo que precede a queda
ou ela é vista caída no chão
alguns admiram sua beleza
outros se encantam com o som do encontro dela com os pés
nada disso muda a entrega da folha à vida
eu adorei ler o texto e fiquei com vontade de fazer um exercício de escrever como cada um desses pontos acontece em minha vida, e, ao mesmo tempo, como eu vejo alguns deles. eu até comecei a escrever aqui, mas escrevo demais e não vou conseguir agora, então vou deixar para quando estiver mais tranquila.