cubro-te com este tecido vistoso
deixo que todos o vejam
podem tocá-lo quando o vento sopra e sua ponta esvoaçante se separa do corpo
podem admirar a beleza do tecido
e escreverão poemas sobre ele
e conhecerão suas cores e cheiro e textura
quadros serão pintados com sua inspiração
mas nunca serás vista
nunca nada além do tecido poderá tocar-te
nem mesmo eu, que seguro, insistente, o tecido em ti
pollyanna
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no vídeo eu leio esta poesia:
Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move.
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Alberto Caeiro
eu entendi agora porque eu não gosto de memes. porque eu não gosto da maioria das piadas que as pessoas fazem. porque muitas pessoas têm medo de olhar pra si mesmas e só conseguem rir da própria projeção nos outros. e eu não consigo. eu não acho engraçado alguém que sente algo desafiador e age confessando sua dor, seja com reclamação ou qualquer outra atitude.
mas uma coisa que as pessoas que fazem piadas com outras me ajudam a acessar é a raiva. uma emoção que quase nunca chega assim com tanta força, mas aparece quando eu vejo isso. quando eu vejo um monte de crianças apontando pra uma única e a acusando de qualquer coisa. e pretensos adultos.
quando isso acontece com as crianças, eu digo imediatamente para pararem. e depois eu escuto cada uma porque sei que todas estão com dores precisando ser acolhidas. quando eu vejo isso acontecer com adultos eu só posso olhar pra mim mesma e ver a minha própria falta de ética e o que essa raiva me convida a transformar.
e eu me recolho, agora, pra sentir e integrar isso aqui. mas não queria deixar de escrever.
alguns dias são mais difíceis no processo do luto. alguns dias a saudade aperta de um jeito doloroso e irremediável. eu evitei sentir nesses dois últimos dias, porque eu queria que fosse tudo mais leve, e eu tinha mesmo sentido uma leveza e me encontrado com a beleza da vida de novo, mas nesses dois últimos dias eu precisava sentir a dor. eu precisava chorar pelo que não é. precisava chorar porque eu não posso ouvir a voz dela, não posso abraçá-la, não posso conversar por mensagem. mas agora me lembro que eu posso sentir, chorar e abraçar essa solidão sem que isso me torne uma vítima ou alguem que precise ser salva. eu posso sentir sem precisar ter medo de que queiram me salvar. o único caminho para atravessar essa ponte é sentir. e aqui estou.
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