O Ciclo do Dia
de Ayalah Berg
Na aurora, o coração desata seu véu,
ingênuo, aberto em luz e desejo...
Ao meio-dia, já carne e pecado,
erra, bebe, ama — e se esquece do beijo.
Seja amor ou só ilusão,
labuta ou festa, espinho ou pétala,
chegará a hora da escuridão,
e a boca emudecerá, fatal.
Noite funda, eterna mestra,
sopras no ouvido do ser:
"Não há amor que não se desfaça,
nem flor que não queira morrer."
E o vento, dono da passagem,
leva os dias como um rio.
Ah, vida! Breve miragem
que seca no peito vazio...
Mas quando a sombra me chamar,
nem o amor, nem o verso, nem o pranto
farão a morte confessar
que valeu a pena tanto.
