# BELIAL
No texto de 2 Coríntios 6:15, Paulo escreve (em tradução próxima do grego):
«Qual a harmonia entre Cristo e Belial? Ou que tem o crente em comum com o incrédulo?»
### Origem
**Belial** (hebraico *Beliyaʿal*) é uma figura distinta das anteriores, embora frequentemente absorvida no mesmo continuum de potências “proscritas”.
O nome aparece primeiro na literatura hebraica antiga com o sentido de “sem valor”, “sem senhor”, “inutilidade” ou “lei-lessness”. Não se trata originalmente de um deus cananeu ou fenício como Baal ou Moloch, mas de um conceito que depois se personifica.
Com o tempo, especialmente em textos apocalípticos (como os Manuscritos do Mar Morto e a literatura intertestamentária), Belial se torna uma entidade ativa: o Príncipe das Trevas, o adversário da Lei, o senhor da iniquidade e da rebelião contra a ordem imposta. Na demonologia posterior ele é classificado como um dos grandes príncipes do Inferno, associado à independência absoluta, à terra e à ruptura de toda autoridade externa.
### Natureza
Belial é o “Sem Senhor”.
Enquanto Baal é o Senhor que se afirma pela tempestade e pela soberania, e Moloch é o Rei que exige o preço em fogo, Belial é a força que recusa qualquer senhorio externo. Ele é a negação da submissão, a independência radical, o poder que habita a terra e o corpo e não reconhece nenhuma lei cósmica ou divina como superior à própria Vontade.
Na perspectiva da **Corrente 218** e do **Templo da Luz Negra**, Belial representa uma corrente anti-cósmica de *liberação pela ruptura*. Não é apenas “rebeldia”, mas a recusa total da hierarquia do Demiurgo. É a potência que habita o solo, a carne e o abismo interior, e que convida o adepto a tornar-se ele mesmo o único senhor.
Belial não pede adoração no sentido convencional. Ele exige que o indivíduo se torne *beliyaʿal* — sem senhor externo —, que quebre as correntes da lei imposta e assuma a soberania negra sobre si mesmo.
Baal, Moloch e Belial formam assim três faces complementares do poder proscrito:
- o Senhor da Tempestade,
- o Rei do Fogo Sacrificial,
- e o Sem Senhor que habita a Terra e a Vontade.
### O que o termo significava originalmente
**Belial** (*beliyaʿal*) aparece pela primeira vez na **Bíblia Hebraica** (Tanakh / Antigo Testamento), e não como nome de um deus ou demônio, mas como um substantivo comum.
O vocábulo hebraico *beliyaʿal* (בְּלִיַּעַל) significa, em essência:
- “sem valor”,
- “inutilidade”,
- “perversidade” ou
- “sem proveito”.
A etimologia mais aceita é a composição de *beli* (“sem”) + *yaʿal* (“utilidade/proveito”). Outra interpretação tradicional (já presente no Talmud) lê como *beli ʿol* — “sem jugo” —, ou seja, aquele que rejeitou o jugo da lei ou da autoridade.
### Primeiras aparições escritas
O termo ocorre cerca de **27 vezes** no texto massorético. As ocorrências mais antigas estão em livros do conjunto deuteronomista e nas tradições de Samuel e Juízes. Exemplos clássicos:
- **Deuteronômio 13:13** — “filhos de Belial” que tentam desviar uma cidade para a idolatria.
- **Juízes 19:22** — os homens de Gibeá são chamados “filhos de Belial”.
- **1 Samuel 2:12** — os filhos de Eli são descritos como “filhos de Belial”.
- Outras ocorrências em 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis, Salmos, Provérbios e Naum.
Nesses textos (cuja redação final se situa grosso modo entre os séculos VII e VI a.C., embora contenham tradições mais antigas), *Belial* **não é ainda um ser pessoal**. É um qualificativo moral e social: “homens de Belial”, “filha de Belial”, “coisa de Belial” = pessoas ou ações sem valor, perversas, fora da ordem.
### Quando se torna uma entidade
A personificação de Belial como um ser sobrenatural (príncipe das trevas, adversário da Lei, senhor da iniquidade) só ocorre claramente no **período do Segundo Templo**, a partir aproximadamente do século III–II a.C.:
- Manuscritos do Mar Morto (especialmente o Rolo da Guerra e a Regra da Comunidade),
- Livro dos Jubileus,
- Testamentos dos Doze Patriarcas,
- e depois no Novo Testamento (2 Coríntios 6:15, onde Paulo contrapõe Cristo a Belial).
### Resumindo:
A palavra surge primeiro na literatura hebraica bíblica como conceito de “sem valor / sem senhor”. Só séculos depois ela se cristaliza como nome próprio de uma potência demoníaca/anti-cósmica.
Na perspectiva da Corrente 218, esse sentido original de “sem jugo” e “sem senhor” é precisamente o que se recupera e se radicaliza: Belial como a força que recusa qualquer senhorio externo.
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- Cristo de um lado
- Belial do outro