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Ubicumque pedem posuero, benedicetur opus manuum mearum, in nomine Iesu.
A genuína filosofia começa no instante em que o ser humano desperta da sua letargia biológica e constata que não está em casa. Vê a realidade com sua existência maciça que não cede à nossa vontade. Para Aristóteles, este "susto" produz admiração. O sujeito percebe que há uma Ordem transcendente. Esta é a linha divisória entre a filosofia como aventura existencial e a filosofia como fuga covarde. O clássico tem a atitude do naturalista que se submete a um itinerário desenhado por uma mão maior que a sua; ele quer escutar o real. O pensador moderno, confrontado com essa mesma autonomia do objeto, sofre de vertigens. O seu orgulho recusa a submissão. Se a realidade não pode ser domesticada, então será ignorada. É o gesto do menino mimado. O espanto aristotélico perante o cosmos é substituído, o amor à sabedoria se degenera na obsessão pelo controle. Foi com este movimento que o homem moderno fechou os olhos e se declarou mestre do universo. Um "sistema" é a sistematização que nasce de um impulso legítimo da inteligência. O sistema foi originalmente concebido como um instrumento para ajudar a organizar o pensamento, estruturar a pesquisa e oferecer um mapa provisório para que a mente não se perca nos fenômenos. Aristóteles e Tomás de Aquino sistematizaram as suas descobertas, sem dúvida. O problema não está na invenção da ordem, mas na perversão da sua finalidade, quando o sistema abandona a sua função de servidor e passa a subjugar a realidade. Na virada cartesiana e nos seus sucessores, o sistema deixou de ser um mapa aberto à correção empírica para se tornar uma arquitetura mental fechada, um circuito lógico autossuficiente que pretende engolir e substituir a totalidade do real. Construir um sistema moderno significa decretar que a realidade só tem permissão para existir se passar pela análise da razão do filósofo. O construtor de sistemas recusa-se a tatear o mundo vivo com os seus mistérios. Em vez disso, ele elabora uma rede rígida de conceitos e exige que o universo caiba ali dentro. Se um fato empírico não se encaixar nas categorias do seu sistema, o fato é amputado, e tratado como lixo; "irracional". Ao substituir o espanto aristotélico edificaram-se estas gaiolas conceituais. Em vez de investigar a realidade que lhe foi dada, ele passou a habitar o "sistema" que ele próprio inventou. Nos compêndios acadêmicos, o sistema filosófico é-nos apresentado como os conceitos onde tudo encontra a sua explicação. Sua real função é a de proteger o pensador, permitindo-lhe esconder-se num ambiente intelectual para nunca mais ter de encarar a face suja dos fatos empíricos. Quando o filósofo constatou que era incapaz de dominar a resistência do mundo exterior, ele não se curvou com humildade perante o cosmos; em vez disso, optou pelo gesto covarde de fabricar um universo imaginário onde apenas ele ditaria as regras. Importa ressalvar que a sistematização não é, em si mesma, um erro ontológico, afinal, existe uma ordem inerente ao próprio universo que Aristóteles procurou organizar no seu intelecto. Se Descartes traçou a planta esquemática desta fortaleza, foi Immanuel Kant, munido da sua inesgotável prolixidade germânica, quem a erigiu. A tão celebrada "revolução copernicana" da filosofia kantiana é uma declaração formal de guerra contra o real em si. Ele não descobre a estrutura do conhecimento, mas garante que o intelecto jamais tocará na "coisa em si", relegando a espessura da realidade a um fantasma inalcançável. A genialidade sinistra de Kant está em oferecer uma anistia intelectual: ele autoriza o homem a ignorar a presença esmagadora do Ser, desde que o faça de forma metodologicamente impecável. Assim a prisão ontológica é coroada. O sujeito concebido por Kant é um legislador tirânico. A inteligência deixa de se moldar docilmente ao real e torna-se uma instância de poder que determina e constrói a forma como o real se deve apresentar. Esta manobra expulsa a contingência e os dados sensíveis para um limbo de onde nunca mais regressarão. O pensador moderno tornou-se o prisioneiro do seu próprio cérebro, um recluso que batizou a sua masmorra de liberdade intelectual. Podemos chamar a Segunda Realidade. O construtor de sistemas caminha, alimenta-se e sofre no mundo concreto, mas a sua mente foi deslocalizada para um universo paralelo, edificado exclusivamente sobre conceitos abstratos. E quanto mais ele se afunda nesta fantasmagoria conceitual, mais esquizofrénico e inapto para a vida autêntica se torna. Ele pode dominar como ninguém a dialética hegeliana, mas, se lhe perguntarmos o que é uma árvore, veremos ele gaguejar citações de autores que nunca olharam para o mundo. Observemos a mecânica desta fuga na obra de dois dos maiores arquitetos da modernidade. O hegeliano, por exemplo, não tem a coragem de negar a realidade. Um fato empírico é prontamente engolido pela dialética e transmutado. O sistema de Hegel é uma construção sob a qual o devir é pura e simplesmente anulado, substituído por uma identidade que devorou o real. Se Hegel procurou dissolver o particular no universal, Sartre fez o movimento inverso: dissolveu o universal no particular, mas zelou para que a clausura do sujeito se mantivesse rigorosamente intacta. O sartreano tendo transferido todo o sentido para si mesmo, se vê esmagado por um peso que não tem estrutura espiritual para suportar. O fio condutor que unifica estes delírios sistematizados é o pavor perante a contingência. Transportar este asseio para a carne suja e viva da realidade é a alucinação geométrica que definha a inteligência. Se a construção de Segundas Realidades fosse apenas o passatempo excêntrico de alguns eremitas letrados, o problema não passaria de uma curiosidade psiquiátrica. Mas essa psicopatologia metodológica abandona o isolamento e se institucionaliza, convertendo-se no critério oficial de validação do conhecimento. Chegamos onde se desdobra na sua dimensão prática, ética e sociológica. A academia moderna é um laboratório de excelência onde o vírus é cultivado e distribuído. Quando observamos o ambiente universitário dos nossos dias, não encontramos uma comunidade unida pela submissão à verdade, mas sim uma máquina de alucinação voluntária. Transformou-se num imenso aparelho de adestramento cuja função principal é castrar a inteligência. Um jovem ingressa na faculdade munido daquela intuição originária e vital que o liga diretamente ao real. Ele sabe, instintivamente, que o mundo existe, que as coisas têm uma natureza e que a verdade não é uma convenção discursiva. Mas, desde o primeiro dia de aulas, esse jovem é submetido a uma lavagem cerebral metodológica. O currículo acadêmico ensina-lhe que confiar na evidência dos sentidos e na intuição do Ser é uma ingenuidade. Ele é treinado para substituir os fatos empíricos por interpretações e narrativas, aprendendo a arte cínica de desconstruir tudo aquilo que não consegue compreender. O erro orgânico é aquele que qualquer homem são comete no seu esforço genuíno para compreender a realidade. O homem normal erra porque os seus dados são insuficientes ou porque a sua lógica falhou momentaneamente. Porém, como a sua inteligência continua voltada para o mundo, a própria realidade encarrega-se de o corrigir: ele tropeça na pedra, sente a dor, reconhece o erro e ajusta a sua conduta. O erro orgânico é vivo e curável. A cegueira estrutural é o produto acabado da educação acadêmica moderna. O intelectual erra por método. A sua inteligência foi treinada para recusar a evidência. Quando o acadêmico contemporâneo tropeça numa pedra, ele não corrige o seu passo. Em vez disso, redige uma tese de quatrocentas páginas a provar que a pedra é uma construção linguística opressora, ou que a lei da gravidade é um resquício do dogmatismo falogocêntrico. Ele faz do seu próprio distanciamento da realidade um selo de superioridade moral. A linguagem separa-se definitivamente da experiência. Os departamentos de humanidades, em particular, debatem conceitos que já não têm qualquer lastro na vida humana concreta. Ao desvincular o pensamento da responsabilidade perante a ordem dada, o acadêmico torna-se um irresponsável. Como a sua teoria nunca precisa de passar no teste corrosivo da realidade concreta ele pode dar-se ao luxo de defender as ideias mais homicidas e absurdas com a consciência tranquila. É a corrupção total do intelecto: a inteligência, que nos foi dada como uma lanterna para iluminar os passos na escuridão do real, é utilizada para nos cegar e nos convencer de que a escuridão não existe. O homem contemporâneo tenta combater o erro com a mesma arma que o gerou. Julga ele que a solução para a tirania das ideologias e dos sistemas pós-modernos está na construção de um "sistema conservador" e de uma "ideologia de direita" que lhe sirva de contrapeso. Nada poderia ser mais ilusório. É tentar curar a psicopatologia moderna erigindo uma nova "Segunda Realidade". A libertação necessita de uma ruptura, não apenas com o conteúdo do pensamento moderno, mas com a sua própria estrutura. O regresso à sanidade se faz através de um ato de profunda coragem moral: a submissão incondicional ao real. O aristotelismo é uma postura de abertura existencial. É o resgate da adequação do intelecto à coisa. O filósofo clássico reconhece que a verdade não é uma fabricação da sua mente, não é um decreto do seu ego, mas uma propriedade do Ser à qual ele deve obediência. Ele aceita que a inteligência humana tem um caráter receptivo: ela foi feita para ser fecundada pela realidade. E é apenas nessa submissão que a verdadeira filosofia começa. #filosofia #philosophy
Língua dupla e estratégia O Globo, 2 de fevereiro de 2002 Os "lugares-comuns" foram assim nomeados pelos retóricos greco-romanos, que os comparavam a depósitos públicos de lixo mental, onde o mais pobre dos argumentadores poderia sempre encontrar alguma ferramenta usada que o tirasse do aperto no confronto desvantajoso com o adversário mais sábio. Cada vez que alguém lança mão de um desses utensílios para dar impressão de pensamento quando não pensou coisa nenhuma, todo mundo sai perdendo: o idioma é lesado, a inteligência aviltada, a opinião pública ludibriada. No entanto, longe de mim desprezar a força dessas velhas armas. A potência inesgotável de lugares-comuns, clichês ou frases feitas assemelha-se à do moto-perpétuo: quanto mais gastos, tanto mais persuasivos; quanto mais deslocados do assunto, tanto mais eficazes. Sua maior virtude reside precisamente em desviar a discussão de um tema difícil e mal conhecido para o terreno firme das banalidades costumeiras, onde as conclusões se produzem com o automatismo fácil das secreções orgânicas. O preço, evidentemente, é escapar por completo da questão em debate mas que importa isso a quem quer apenas dar boa impressão? Não há hoje em dia lugar-comum mais comum do que descartar in limine qualquer alegação contra o esquerdismo sob o pretexto de que nasce do "ódio". Mais tipicamente: do ódio "visceral". Você diz que os comunistas promoveram os maiores genocídios da história? É "ódio visceral". Você afirma que criaram o Gulag e o Laogai, redes de campos de concentração que superaram as mais macabras ambições dos nazistas? "Ódio visceral”. Você se queixa de que bloqueiam a divulgação de seus crimes? "Ódio visceral". Depois de repetirem isso umas centenas de vezes, você ficará parecendo mais mau do que aqueles que mataram 100 milhões de seres humanos, prenderam outros tantos e hoje proíbem você de tocar no assunto. Pensando bem, você é que é um genocida, um tirano, um monstro. Eles mataram apenas uns quantos milhões de pessoas, conservando, mediante prodigios de inventividade lógica, uma linda autoimagem de almas santas e bem-intencionadas. Aí vem você e, impiedosamente, rasga essa autoimagem. Você é muito malvado, rapaz. Você não tem amor no coração. O mais curioso é que essa rotulação venha justamente de adeptos, simpatizantes e colaboradores passivos de uma ideologia que, em família, jamais escondeu a motivação última que a movia. Ainda ressoa nesta página o conselho de Górki, escritor oficial da revolução russa, que ensinava aos militantes a repulsa física ao inimigo. Talvez o leitor recorde também a observação de Brecht, de que, se os acusados dos Processos de Moscou eram inocentes, tanto mais mereciam ser fuzilados pelo bem do socialismo. Talvez conheça a declaração de Eldridge Cleaver, de que estuprar mulheres brancas é um mérito revolucionário. E talvez não tenha sumido da sua memória a fórmula de Che Guevara, que aconselhava "o ódio intransigente ao inimigo, ódio que impulsiona além das limitações naturais do ser humano e converte o guerrilheiro numa eficiente e fria máquina de matar". Mas, naturalmente, nenhum desses cavalheiros disse ou praticou essas coisas por ódio. Odiento é você, que sai contando para todo mundo que eles as disseram e praticaram. É com base na peculiar lógica comunista dessa conclusão que, por exemplo, o Fórum Social Mundial pode ostentar a bandeira da "paz", entendendo por paz a suspensão das ações americanas no Afeganistão, que mataram umas centenas de pessoas, mas não a da ocupação chinesa no Tibete, que já matou mais de um milhão. Quando Orwell disse que os comunistas inventaram um novo idioma no qual amor é ódio, paz é guerra, sim é não e não é sim, ele não exagerou em nada. Duplicidade, diversionismo, camuflagem são o cerne mesmo da alma comunista. E quem quer que, discutindo com comunistas ou similares, atenha-se ao conteúdo literal de seu discurso, sem perceber que se destina apenas a encobrir a lógica profunda de suas ações, estará sendo feito de otário. Diga francamente o caro leitor: se um visitante, imbuído da manifesta intenção de seduzir sua esposa, começa a frequentar sua casa sob o pretexto de jogar cartas, você acha que o melhor que tem a fazer com o intruso é empenhar-se em ganhar o jogo? Assim procede quem, diante de organizações políticas envolvidas até a goela num movimento revolucionário continental associado ao narcotráfico, discuta com elas programas de governo e remédios para os problemas nacionais, ajudando-as a fingir uma atmosfera democrática de paz e normalidade. Para o revolucionário, todo discurso público, sobretudo eleitoral, é apenas utensílio. Utensílio tão provisório, tão descartável quanto uma tira de papel higiênico ou uma camisinha. A conquista definitiva do poder, o controle absoluto do Estado, a destruição completa das oposições tais são, hoje como sempre, os únicos objetivos daqueles que se dizem esquerdistas de um novo tipo, convertidos à democracia, mas que continuam cúmplices do regime de Fidel Castro e usam, como se fossem instrumentos legítimos do processo democrático, as mesmas armas comunistas de sempre: incentivar e legitimar a violência das massas (denunciando histericamente a reação dos agredidos), desmantelar desde dentro e desde cima o aparato militar, policial e judiciário, manipular e alterar o sentido das leis, controlar os meios de informação, o ensino, as fontes de energia e a rede viária, fomentar o banditismo e depois culpar por ele a sociedade capitalista. Discutir economia e administração com esses farsantes é cair num jogo sujo, é desempenhar na pantomima precisamente o papel que eles reservaram para suas futuras vítimas. Só o que cabe é desmascarar, por trás de suas alegações variadas, artificiosas e desnorteantes, a constância e a lógica implacável da sua estratégia de conquista. Pelas mesmas razões, é inútil tentar combatê-los com acusações de corrupção banal, idênticas àquelas com que eles destroem facilmente as reputações de seus adversários. Primeiro, porque a parcela ideologicamente intoxicada do eleitorado, que constitui o contingente dos seus votantes fixos, não se escandaliza com atos desonestos cometidos por seus líderes, que lhe parecem vir em proveito da revolução. Segundo, porque a organização empenhada na luta por um objetivo geral que é mau, desonesto e pérfido em essência há de tratar sempre de ser a mais honesta possível nos detalhes instrumentais da política diária, não só para evitar problemas de percurso mas também para poder prevalecer-se de uma aparência enganosa de superioridade moral: nada mais rígido que o moralismo interno das máfias e dos partidos revolucionários. Não, a perfídia esquerdista não será jamais vencida por meio de tímidas mordidas nas beiradas. É preciso feri-la no coração, e esse coração chama-se: estratégia. Ou a desmascaramos, ou nos conformamos em vir a ser governados por um Pol-Pot, um Fidel Castro, um Ceaucescu.