OS BRASÍLIDAS
CANTO X.11
O VARÃO DA VERA CRUZ
I
Não canto as armas só dos navegantes,
Que abriram mares nunca dantes vistos;
Canto os varões de ânimos constantes,
Nos dias mais escuros e imprevistos.
Quando, entre os homens frágeis e inconstantes,
Triunfam os enganos nunca vistos,
Deus faz surgir, no tempo determinado,
Quem guarda a Luz ao povo confiado.
II
Jazia a terra em longa servidão,
Ao jugo da cobiça e da mentira;
Vendera a antiga honra da Nação
À voz que o vício em doce mel conspira.
Já não pulsava em seu leal coração
A Fé que toda a esperança inspira;
Dormia a Cruz sob cinzas esquecida,
Como se morta fosse a própria vida.
III
Esquecera os heróis de antigos dias,
Que abriram com a Cruz novos caminhos;
Que entre tormentas, fomes e agonias,
Plantaram Deus em mundos tão distantes.
Seu sangue fecundou as alegrias
Das gerações futuras e constantes;
Mas a memória, vencida pelo olvido,
Fez pobre um povo outrora engrandecido.
IV
Então, por alta mão da Providência,
Ergueu-se um Varão firme e destemido;
Não lhe servia o ouro por ciência,
Nem do poder buscava o vão partido.
Levava por escudo a consciência
E por espada o Verbo esclarecido;
Sua riqueza era dizer Verdade,
Sem vender alma alguma à falsidade.
V
Tremeram logo os tronos levantados
Sobre os alicerces da injustiça;
Moveram-se os antigos magistrados,
Guardando o templo falso da cobiça.
Chamaram contra o Justo os seus soldados,
Vestidos com as vestes da justiça;
E o Ódio, que jamais dorme ou descansa,
Fez da Inveja sua fiel aliança.
VI
Das furnas onde habita o Leviatã
Saiu a antiga Serpe envenenada;
Cobriu de sombras a manhã cristã
E fez da fraude lei sacramentada.
A Fama, outrora dama cortesã,
Vendeu-se à multidão desatinada;
E arautos de alugado entendimento
Mercadejaram o falso julgamento.
VII
Então desceu sobre os mortais flagelo,
Que encheu de pranto os lares e cidades;
Cobriu-se o céu de lúgubre nevoeiro
E vacilaram muitas vontades.
Uns viram nisso o braço justiceiro,
Outros, somente humanas crueldades;
Mas toda dor revela ao coração
Quanto é pequena a força da ambição.
VIII
E não bastando o mal já derramado,
Buscaram o Varão para acusá-lo;
Vestiram o impostor de magistrado,
Para, sem culpa, condená-lo.
Fez-se do justo réu encarcerado,
E do perverso digno de exaltá-lo;
Talvez porque, nas eras decadentes,
Se honrem mais os astutos que os valentes.
IX
Clamou o povo em lágrimas profundas,
Mas poucas vozes ousaram defendê-lo;
As bocas foram feitas moribundas,
E muitos preferiram não dizê-lo.
Assim prosperam épocas infecundas,
Quando o temor domina mais que o zelo;
Pois quem se cala ante a iniquidade
Entrega o próprio cetro à falsidade.
X
Contudo, Deus, que escreve sobre a História
Com letras que nenhum mortal alcança,
Não mede o triunfo pela glória,
Nem pela duração da confiança.
O Tempo pesa os feitos na memória,
E a Justiça não perde a esperança;
Porque a Verdade, ainda perseguida,
Jamais conhece o fim da própria vida.
XI
Podem ruir impérios poderosos,
Podem calar profetas na prisão,
Podem sorrir os homens orgulhosos
Enquanto vence a fraude e a corrupção;
Mas surgem sempre espíritos briosos
Que Deus desperta em cada geração;
E enquanto houver um peito fiel à Cruz,
Jamais se extinguirá a eterna Luz.
XII
Ó Pátria, lembra enfim tua origem santa,
Teus mártires, teus templos, tua memória;
Nenhum povo sem Fé jamais levanta
Duradouro edifício de vitória.
Quem sobre a mentira se agiganta
Será vencido pela própria história;
Pois reina acima do querer humano
O Justo Juiz, eterno e soberano.
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OS BRASÍLIDAS
Projeto de uma Epopeia Brasileira cantada em versos.

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