Sobre professores e alunos. Eu não gosto muito de falar deste assunto porque, tendo sido professor por muito tempo, parece que estou me engrandecendo, ou advogando em causa própria, mas não é o caso. O caso é que há uma assimetria necessária entre aluno e professor. O aluno nunca consegue pagar o que o professor faz por ele. Vejam, dinheiro é uma coisa boa, e uma invenção genial, facilita muito a vida, mas mascara algumas relações. Se você me empresta dinheiro, e eu pago de volta, eu devolvi tudo o que você me deu. Eu posso dar algo a mais para agradecer, fazer algum outro favor, mas eu recompensei você exatamente -- e literalmente -- na mesma moeda. Se eu vendo uma dúzia de ovos, e você me paga o que eu quero pela dúzia de ovos, você pagou o preço que eu pedi, e ambos ficamos satisfeitos, mas você não me devolveu nada. Devolver seria me entregar uma dúzia de ovos. Você não quer fazer isso, e nem eu, é por isso que eu vendi, este não é o ponto. O ponto é que pagar na mesma moeda, saldar completamente a dívida, é devolver o que recebeu. É por isso que presentes feitos à mão são mais valiosos que os comprados. Eu posso comprar outro para você, ou eu posso lhe dar exatamente o que você pagou por um presente comprado, mas devolver, recompensar plenamente o presente seria eu fazer algo igual e lhe dar. Alguns bens são muito difíceis de devolver. É por isso que artesãos de renome são estimados, porque você não consegue fazer uma cadeira, um sapato, um relógio, igual ao que ele fez para você, mesmo que consiga juntar muitas vezes o dinheiro que você pagou, ou que ele gastou. É por isso também que guerreiros tinham alguns privilégios em sociedades antigas: o sujeito está protegendo a sua vida, recompensá-lo plenamente só é possível se você, em troca, arriscar a própria vida por ele. Um bem mais alto só um professor ou seus pais podem dizer que deram. Um pai ou uma mãe -- mesmo os piores -- não podem nunca serem recompensados, a gente não tem como dar a vida a eles. No limite, morrer pelos pais ainda não é a mesma coisa. Você deu a sua vida, sim, mas o bem que causou é o de MANTER, não criar, a vida deles. O único tipo de pessoa que pode lhe dar um bem desta natureza é o professor, mesmo o medíocre. Veja, se alguém me ensina a escrever, mesmo que com falhas, etc, nada que eu faça pode devolver o favor. Mesmo que eu aprenda muito mais, eu não consigo ensinar a ela o que ela me ensinou, porque ela já sabe. Ensinar (qualquer coisa) é levar uma pessoa de um estado de ignorância a um estado de relativo conhecimento em um assunto que o próprio professor sabe relativamente. Por definição, isto é impagável. Veja, eu não estou dizendo que se deve aceitar abuso, violência, fraude de professor ruim, nem que a pessoa precisa ficar aos pés do mestre a vida inteira. Mas alguma gratidão, mesmo aos maus mestres, é ontologicamente necessária. Porque nada que você faça pode pagá-lo a contento. O dinheiro que você dá é o preço que ele estabeleceu, não pelo conhecimento que recebeu, mas pelo tempo que gastou com você.